| Soldados esquecidos |
| Recrutados pelo exército, indígenas ajudaram o Brasil a ganhar a Guerra do Paraguai, mas nunca foram justamente recompensados pela bravura que exibiram nos campos de batalha |
| Rosely Batista Miranda de Almeida |
Não foram só as forças armadas do Império que deram ao Brasil a vitória no maior conflito bélico jamais ocorrido na América do Sul. Pesquisas já mostraram que gente do povo, mulheres, escravos e ex-escravos também tiveram atuação marcante na Guerra do Paraguai (1864-1870). De todas essas minorias combatentes, a participação dos índios era menos conhecida. Hoje se sabe que eles atuaram no conflito como verdadeiros soldados, e foram considerados “bravos auxiliares” por oficiais do nosso exército. Existem muitos relatos sobre gestos heróicos de soldados indígenas que fazem jus aos elogios, como, por exemplo, o de grupos avançando de peito nu, numa demonstração de extrema coragem, para desalojar soldados paraguaios escondidos nas matas que eles tão bem conheciam. Ou de pelotões indígenas realizando com êxito a missão de observar os movimentos do inimigo ou de trazerem de volta aos seus destacamentos soldados desertores e escravos fugidos. Nessas ações, não eram movidos propriamente por patriotismo ou sentimento semelhante, mas sobretudo pelos interesses dos grupos a que pertenciam. Os índios que habitavam as terras da Província de Mato Grosso, ao se tornarem soldados, queriam, antes de mais nada, ver pelas costas, fora de seu território e longe de sua vista, o soldado inimigo, que traria para o seu povo morte e destruição. Ao defenderem o exército imperial, acreditavam estar defendendo também sua gente e resguardando seu espaço. Por isso os paraguaios eram considerados inimigos comuns, deles e da nação branca. Tornaram-se soldados do Império brasileiro, em maior número, os Mbayá-Guaicuru (Kadiwéu), os Txané-Guaná (Terena, Kinikinau, Layana e Guaná), os Xamakoko, os Guató, os Kayapó e os Bororo da Campanha (assim denominados, supostamente, por habitarem os campos abertos da região pantaneira). Os territórios de todos esses grupos e nações indígenas se localizavam na parte meridional da antiga Província de Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul. Muito tempo antes da guerra, a Coroa portuguesa já tinha consciência da importância desses grupos indígenas para a defesa do território da colônia no vale do Paraguai, estimulando e atraindo nativos para povoarem aquela área de fronteira. Os Txané-Guaná (grupo Aruak) e os Mbayá-Guaicuru, vindos da região do Chaco, habitavam a bacia pantaneira (Baixo rio Paraguai) desde meados de século XVII, e foram os que tiveram maior participação no conflito. Sempre estiveram ao lado dos brasileiros. Estes e outros grupos nativos mantinham contatos regulares, desde a segunda metade do século XVIII, com os habitantes da parte sul da Província. Estiveram presentes durante a construção das primeiras unidades militares da região, a exemplo do forte de Coimbra, construído pelos portugueses em 1775 para garantir a posse das áreas conquistadas pelo avanço bandeirante. Estavam também acostumados a auxiliar militares e civis como intérpretes, remadores ou no transporte de cargas. Eram comumente recrutados em aldeamentos próximos aos novos núcleos de povoamento, como, por exemplo, o de Albuquerque. Tais vínculos se estreitaram ainda mais na segunda metade do século XIX, a partir da fundação das missões religiosas pelo governo imperial. Em 1846, foi criada a Diretoria Geral dos Índios, na Província de Mato Grosso, como conseqüência do Decreto de 24 de julho de 1845, que oficializava o Regulamento das Missões e reprovava a política de guerra contra os índios. Conforme a determinação do governo imperial, as missões, também chamadas de “aldeias regulares”, eram estabelecimentos oficiais presentes em cada província brasileira. Cada núcleo era administrado por um diretor, religioso ou não, que estava subordinado ao diretor-geral da província. Na prática, não mudava muito a política que prevalecia desde os tempos coloniais. Esperava-se que os índios, uma vez aldeados, se tornassem dóceis e submissos aos costumes “civilizadores” do homem branco e a uma cultura que não era a deles. Era também uma porta aberta à exploração da mão-de-obra indígena por parte de autoridades e fazendeiros. Manuscritos guardados no Arquivo Público do Estado de Mato Grosso afirmam que a aproximação de índios com não-índios se dava também através do comércio. Era o caso dos Guaná, que pelo menos duas décadas antes da guerra negociavam redes, panos, cintos e suspensórios, principalmente por permutas, tanto com brasileiros como com os vizinhos paraguaios, no forte Olimpo. Atuavam também como informantes, já que depois relatavam aos brasileiros o que se passava no outro lado da fronteira. Esse tipo de atividade foi também observada por Alfredo d’Escragnolle Taunay (1843-1899), militar incorporado à expedição de Mato Grosso no grupo dos engenheiros e em seguida autor do romance A Retirada da Laguna. Em 1825, antes da guerra, o presidente do Paraguai, José Gaspar Rodrigues de Francia (1776-1840) queixava-se dos índios Guaicuru, que invadiam o território de seu país para pilhagens e saques. Afirmava Francia serem os índios influenciados pelos moradores de Cuiabá, de Miranda e do forte de Coimbra. E, segundo Augusto Leverger (1802-1880), futuro presidente da Província de Mato Grosso, talvez fosse este o mais antigo motivo da indisposição dos vizinhos castelhanos contra o Império do Brasil. A preocupação central dos governantes da Província era proteger as fronteiras de Mato Grosso. Para tanto, procuravam manter os índios próximos a elas. Sem dúvida nenhuma, esta estratégia ajudou muito o Brasil a vencer a guerra. Os índios eram exímios conhecedores da região do conflito. Por isso, eram requisitados pelos militares como guias. A partir de 1860, os Guaicuru passaram a ser enviados com freqüênciaGuaicuru Cavaleiros, assim denominados por serem conhecidos, desde o período colonial, como especialista na arte de montar. A narrativa sobre essa habilidade especial dos Guaicuru pode ser encontrada na obra A Retirada da Laguna. Nela, Taunay descreve um dos momentos mais dramáticos do conflito, ocorrido em 1867. As tropas sofriam com a falta de víveres e outras dificuldades, como o desconhecimento daquela região pantanosa, as conseqüências dos incêndios provocados pelos paraguaios e a escassez de água, apesar das copiosas chuvas. Foi um período de elevada mortandade, provocada pelo inimigo e por um surto de cólera, que fez inúmeras baixas. Soldados indígenas também enfrentaram com bravura aquela situação extrema. Relata Taunay que o major José Tomás Gonçalves, comandante do 21º Batalhão de Infantaria, seguiu uma vez a cavalo, em companhia do Corpo de Caçadores e mais trinta índios, para surpreender paraguaios que se encontravam a mais de uma légua. Percebendo a disposição da coluna brasileira, os inimigos, embora com maior número de combatentes, resolveram debandar, deixando para trás arreios, cavalos e lanças. O major Gonçalves destacaria depois a atuação aguerrida dos soldados índios nesse episódio. Por conhecerem bem os territórios da Província, diferentes grupos indígenas prestavam serviços também na abertura de trilhas e outros tipos de trabalho, como o fornecimento de lenha para os vapores que transportavam pessoas e cargas ou o sepultamento dos mortos em combate. Os Kinikinau, os Xamakoko, os Kayapó, os Terena e os Layana foram mencionados, em manuscritos relacionados ao período da guerra, como os que socorriam as forças militares com mantimentos. Os Guaicuru, os Terena, os Kinikinau e os Guaná ocuparam as frentes de batalha no episódio da Retirada da Laguna e depois em solo paraguaio. A inimizade dos Guaicuru com os paraguaios se registra desde o período da colonização, quando expedições punitivas eram freqüentemente enviadas contra eles pelos espanhóis, inclusive com participação de grupos indígenas rivais, como os Guarani. Tais incursões estimularam e enraizaram a inimizade dos Guaicuru pelos paraguaios, mais do que com os portugueses. Quanto aos Guató, os manuscritos pesquisados não esclarecem o porquê de terem lutado inicialmente em favor dos paraguaios. Supõe-se que isso se deu pelo fato de habitarem as terras do Alto rio Paraguai, onde teriam sido aliciados pelo inimigo. Mas eles acabaram se desligando das forças paraguaias – segundo afirmaram, pelas crueldades que puderam presenciar. Tornaram-se então espiões a serviço dos brasileiros, aos quais davam conta dos movimentos do inimigo nas terras próximas ao rio São Lourenço, na Província de Mato Grosso. Os Bororo da Campanha, que viviam próximos ao Escalvado (nas imediações de Cáceres, antiga Vila Maria), prendiam e traziam de volta aos destacamentos os desertores e escravos que fugiam para a Bolívia. Entre os índios havia voluntários, mas grande parte deles era levada à força para o campo de batalha. O que se consideraria hoje uma grave infração aos direitos individuais, era comum na época. Em geral, o recrutamento compulsório incidia sobre indígenas, negros, forros ou escravos, e homens desocupados em condições de lutar – todos representantes das camadas “inferiores” da população. A prática do recrutamento forçado não era tranqüila. Existe o registro da atitude de um velho índio Guaná chamado Braz, que teve dois filhos menores, Ricardo e José, recrutados contra a sua vontade. Ele se apresentou ao general Alexandre Manoel Albino de Carvalho, presidente da Província de Mato Grosso, em julho de l865, para exprimir suas queixas. Segundo alegou o ancião, eram Ricardo e José que o ajudavam a manter-se na velhice, e além disso um outro filho já participava da guerra, como soldado no Exército imperial. O documento não indica o resultado de suas reclamações. Os índios voltavam dos ataques aos paraguaios carregando consigo fuzis, munições, tecidos, terçados (sabres), uniformes velhos e diplomas recebidos de oficiais brasileiros, como prova de sua presença nas fileiras da guerra. Alguns, como os Guaná, receberam até gratificação em dinheiro. Eles costumavam guardar por muito tempo os modestos prêmios que recebiam, orgulhosos de seu atos de bravuras. Em 1865, os Kadiwéu chegaram até São Salvador, pelo rio Apa, carregando armas a eles oferecidas por brasileiros, além de muitos outros objetos e mercadorias obtidos com saques e pilhagens contra instalações militares e comboios de abastecimento uruguaios. Em 1879, quase quinze anos depois, ainda eram vistos usando os velhos sabres presos à cintura. Os cadiuéus (grupo remanescente dos Guaicuru) sustentam ainda hoje que receberam, da parte do próprio imperador D. Pedro II, a promessa formal de terem suas terras demarcadas tão logo terminasse a guerra. Eles temiam, desde o começo do conflito, que seu território pudesse ser invadido pelo inimigo e vir a tornar-se propriedade dos castelhanos paraguaios. Autores como Sílvia Carvalho, atestam que, por documento oficial, datado do século XIX, eles têm, realmente, esse direito. Contudo, o acordo nunca foi respeitado. Terminada a guerra, tornou-se comum a apropriação das terras indígenas, por fazendeiros ou militares, na região sul da Província. Tal situação tem inspirado, desde então, inúmeros conflitos entre índios e não-índios em áreas do atual Mato Grosso do Sul. Embora a vitória sobre o Paraguai se deva muito à força dos índios, estes voltaram da guerra, enfim, sobraçando apenas ninharias, ofertadas como esmolas, sem direito a honrarias ou recompensas de verdade pela bravura que exibiram nos campos de batalha. Fonte: RHBN |
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domingo, 30 de janeiro de 2011
| Mão negra, espada branca |
| Guerra no sul do Brasil fez Portugal recrutar “homens de cor”. Para algumas capitanias, eles eram uma ameaça maior que os espanhóis. |
| Luiz Geraldo Silva |
Em 1762, durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), a fronteira noroeste de Portugal foi invadida por forças francesas e espanholas. Graças ao auxílio inglês a campanha militar foi breve. Mas a fragilidade lusa ficou patente no conflito. Era preciso reformular sua arcaica estrutura militar. E isso era tarefa urgente, porque a Espanha continuava ameaçando suas fronteiras. Mas desta vez do outro lado do oceano. Desde a União das Coroas Ibéricas (1580), comerciantes das Américas portuguesa e espanhola haviam formado redes que continuaram existindo depois da restauração de 1640. Para garantir suas posições no comércio que ligava a região do Rio da Prata com o centro-sul do Brasil, Portugal criou a Colônia de Sacramento (1680), situada em frente a Buenos Aires, e a capitania de Rio Grande de São Pedro (1713). Os espanhóis atacavam estas posições sempre que podiam, tornando muito instável a situação daquelas fronteiras. A crise chegou ao auge quando, numa investida a partir de dezembro de 1762, forças espanholas lideradas por D. Pedro de Cevallos ocuparam a Colônia de Sacramento, os fortes de São Miguel e de Santa Tereza (no que viria a ser o Uruguai), e Rio Grande de São Pedro (atual Rio Grande do Sul). Tinha início o período da dominação espanhola no sul da América portuguesa. Era o momento de reagir, e Portugal contava com o homem certo para isso: Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), mais tarde conhecido como marquês de Pombal, tinha status de superministro e vinha empreendendo várias reformas desde que assumiu o cargo, em 1755. Com o agravamento da situação ao sul do Brasil, ele deu início a uma série de medidas militares e estratégicas para retomar o território. A primeira delas, já em 1763, foi a transferência da capital de Salvador para o Rio de Janeiro. Mais central e mais próxima do palco da guerra, a nova sede do Vice-Reino receberia mais facilmente recrutas, munições e rações das outras capitanias, e os remeteria ao Sul. À capitania de São Paulo foi atribuído o papel de muralha entre os espanhóis e o cobiçado território das Minas. Finalmente, veio a Carta Régia de 22 de abril de 1766. Enviado a todos os governadores e capitães-generais, o comunicado mandou “alistar todos os moradores das terras da Vossa jurisdição que se acharem em estado de poderem servir nas Tropas Auxiliares, sem exceção de Nobres, Plebeus, Brancos, Mestiços, Pretos, Ingênuos e Libertos”. Ao contrário do exército profissional, que era fardado, armado e remunerado pela Coroa, os colonos alistados nas tropas auxiliares tinham que prover suas próprias armas, munições e fardamentos. A Carta Régia reconhecia que, até então, essas tropas pecavam pela “irregularidade e falta de disciplina”, mas apostava que, se fossem “reguladas e disciplinadas como devem ser”, constituiriam “uma das principais forças que tem o mesmo Estado para se defender”. O esforço de guerra pretendido por Pombal esbarraria num problema social: as relações escravistas e raciais no Brasil Colônia. Na década de 1760, negros livres e escravos formavam quase dois terços da população da América portuguesa, e na maior parte das capitanias havia mais negros do que brancos entre a população livre. Por isso, o resultado óbvio da convocação seriam corpos militares formados, em sua maioria, por homens de cor. Cada capitania respondeu à sua maneira ao chamado para a guerra luso-castelhana. Em Minas Gerais, o governador Luís Diogo Lobo da Silva (1763-1768) criou regimentos – chamados de “Terços” – apenas com pardos e pretos, determinando que eles deveriam ter seus próprios oficiais. Ordenou que os capitães-mores fizessem a contagem de todos os escravos de suas freguesias para formar, com a quinta parte deles, alguns “Terços de Negros Cativos”. E ainda sugeriu, para espanto local, que os senhores providenciassem armas de fogo para seus escravos recrutados. Várias câmaras de vilas consideraram essas medidas muito arriscadas. As de Caeté e Mariana, por exemplo, recusaram-se a armar e a formar tropas com o que chamavam de “inimigos domésticos dos brancos” e “bárbaros infiéis”. Em São Paulo, o recrutamento de pardos e pretos começara antes mesmo da publicação da Carta Régia de 1766. Em agosto do ano anterior, o governador D. Luís Antonio de Souza Botelho Mourão, o morgado de Mateus (1765-1775), determinara a formação de uma companhia de pardos na vila de Santos, uma de mulatos em São Sebastião e revelou intenção de criar outra tropa de pardos em São Vicente. Também colocou em marcha um projeto de armar com chuços (espécies de lanças) todos os escravos do litoral. Depois da Carta Régia, surgiram ainda mais corpos militares de homens de cor em São Paulo, como as Companhias de Mulatos de Taubaté e de Pindamonhangaba, a Tropa de Pardos de Jundiaí e as Companhias de Pretos da vila de Paranaguá. Mas o berço das tropas dos homens de cor era mesmo Pernambuco, pois a capitania já havia passado pelas guerras contra os holandeses de 1630-1635 (invasão) e 1645-1654 (restauração). A memória de Henrique Dias, mestre de campo das tropas negras naqueles conflitos, eternizara-se: seu nome fora adotado pelos batalhões de Pretos que surgiram em várias capitanias após sua morte, em 1662. Um século depois, estavam ativos dois corpos militares de homens de cor em Pernambuco. O de Pardos possuía 31 companhias e contava com 1.401 pessoas. O de Henrique Dias, exclusivamente formado por Pretos, contava com 17 companhias formadas por 1.549 homens. A Carta Régia de 1766 chegou à capitania no governo de Antônio de Sousa Manoel de Meneses, conde de Vila Flor (1763-1768). Ele decidiu estabelecer três novos corpos militares: um Terço Novo de Henriques, destinado exclusivamente aos Pretos, e dois Terços de Pardos. Os combates se intensificaram a partir de 1774. Os espanhóis, que já haviam conquistado o Rio Grande, avançaram até Santa Catarina. O Brasil tinha um novo vice-rei desde 1769, o marquês do Lavradio, que diante da situação solicitou a Pombal que militares de sua confiança assumissem o governo de algumas capitanias, ou fossem remanejados de umas para outras, e mandou aumentar o recrutamento para a guerra. O que gerou novos problemas. De São Paulo, tropas de Pardos e Pretos foram enviadas para as fronteiras do Mato Grosso. Determinou-se que todos os “homens solteiros, Brancos, Bastardos, Negros forros, e ainda os papudos [pessoas com bócio]... e todos os mal casados” serviriam em um mesmo corpo militar. As resistências por parte dos soldados brancos foram imediatas. Os de Itu protestaram contra o alistamento do filho de uma mulata em suas fileiras. Em Jundiaí, mães negras eram presas pelas autoridades caso seus filhos desertassem das tropas. Perfazendo apenas 25% da população da capitania e considerados novatos na região, os negros livres eram tratados como escória na capitania. As câmaras mineiras, por sua vez, aceitaram a existência dos Terços de Pretos e Pardos, mas reclamavam que eles fossem liderados por homens de cor. Para piorar o quadro, a situação das tropas era de evidente penúria. A maior parte dos 4.085 soldados enviados de Minas Gerais foi descrita como “vadios”. Somente 757 deles portavam armas de fogo. O restante utilizava lanças de pau tostado. Muitos estavam “inteiramente nus, sem mais que umas ceroulas e camisas”. O próprio vice-rei Lavradio, ao constatar que não estavam preparados para enfrentar uma guerra, acabou dispensando muitos soldados. A discriminação às tropas de cor não era a mesma em Pernambuco. Ao contrário, os Terços de Pretos e Pardos eram uma instituição respeitável. A Ordem Régia enviada para a capitania em maio de 1775, determinando novo recrutamento, fazia menção especial ao histórico de serviços prestados pelos homens de cor na capitania: “Sua Majestade conserva muito vivas na sua lembrança as gloriosas ações com que sempre se distinguiu o dito Terço”. Os que então o compunham deveriam “parecer não só descendentes, mas verdadeiros imitadores dos heróis que tanto o ilustram”. Retórica bem distante do que se viu: quase todos os recrutados estavam nus e poucos tinham armas. Muitas sequer funcionavam. A solução, como em Minas, foi fazer oitocentos paus tostados, recurso por sinal elogiado pelo governador, José César de Meneses, que se lembrava “de terem sido estas as armas de que aqui se usou durante a expulsão dos Holandeses, as quais os Pretos jogam com admirável destreza”. Os combates heróicos de Henrique Dias eram coisa do passado. Prova disso foi a reação dos soldados pernambucanos quando, no dia 7 de setembro de 1775, já preparados para partir, chegou ao Recife a suspensão da ordem de recrutamento. A guerra já estava em seu final. Pretos e Pardos correram “para suas casas, com tanta pressa que se atropelavam uns aos outros, soando por todas as ruas as festivas aclamações de viva El Rey Nosso Senhor”. Fonte: RHBN |
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
| O gaúcho que inventou o rádio |
| Guglielmo Marconi levou a fama, mas foi o padre Landell de Moura quem fez as primeiras experiências de transmissão da voz humana em 1893. Ele nasceu há 150 anos, em Porto Alegre |
| Lucio Haeser |
Há 150 anos, no dia 21 de janeiro de 1861, nascia, em Porto Alegre, o padre Roberto Lândell de Moura, o inventor do rádio. Guglielmo Marconi levou a fama, mas a obra do italiano foi o telégrafo sem fio. Ou seja, pontos e traços do Código Morse sendo enviados pelo espaço. Já o padre Landell fez as primeiras experiências de transmissão da voz humana em 1893. Antes de Marconi e antes de Nicolá Tesla, gênio nascido na Croácia, que desenvolveu grandes experimentos, e que é reconhecido nos Estados Unido s como o inventor do rádio. [À esquerda: foto de Landell de Moura tirada em 1908, com manipulação / wikimedia]. É claro que, como na maioria dos inventos, nunca se pode dar o crédito a apenas uma pessoa. Sempre há um processo de inovações que levam a uma determinada descoberta. A existência das ondas eletromagnéticas foi teorizada pelo escocês James Maxwell em 1873. O alemão Heinrich Hertz fez a primeira demonstração prática do fenômeno em 1888. A década de 1890 fervilhava com a idéia da transmissão de mensagens à distância sem a necessidade de fios, fossem elas em código Morse, sons ou imagens. Mas, mesmo que sejam desconsideradas as experiências pioneiras de Landell de 1893, e seja levada em conta apenas a transmissão de 3 de junho de 1900, na Avenida Paulista, em São Paulo, amplamente testemunhada e registrada na imprensa, vê-se claramente que o padre porto-alegrense foi o primeiro a levar a palavra do homem à distância sem o uso de fios. Pois só seis meses depois haveria notícia de algo semelhante. E ainda assim, restam dúvidas se o canadense Reginald Féssenden, fez de fato a sua primeira transmissão em dezembro de 1900. Publicamente, a primeira transmissão de Féssenden ocorreu apenas no Natal de 1906. [À direita: réplica funcional do Transmissor de Ondas, construida por Marco Aurelio Cardoso Moura em Maio de 2004 / wikimedia] No entanto, o rádio nasceu pelas mãos de Landell, mas ninguém percebeu. O fato é que, apesar de ter obtido patentes para seus inventos até nos Estados Unidos, no Brasil ele foi tido pelas autoridades como louco e, por alguns dos féis da igreja, como alguém que tinha pacto com o demônio. Landell sempre trabalhou com recursos próprios. O interesse do padre pela ciência já o havia colocado em contato com dom Pedro II, ainda durante o império. Pedro II sempre foi um homem de visão e aficionado pelas novidades científicas. No entanto, mais tarde, em 1904, já sob o regime republicano, quando Landell procurou o presidente Rodrigues Alves para obter auxílio em seus experimentos, foi visto como doido. É que ele teve a ousadia de dizer que, futuramente, o seu invento possibilitaria até a comunicação interplanetária. Landell estava certo. Hoje temos as espaçonaves não tripuladas Voyager, lançadas pela Nasa em 1977, saindo do sistema solar, e ainda enviando imagens e sons para a Terra. Outro episódio foi marcante na vida de Landell. A invasão e destruição de seu laboratório, construído a duras penas. Fiéis da igreja invadiram seu local de trabalho e destruíram tudo. Por volta de 1910, com outros cientistas estrangeiros levando as experiências adiante, e ganhando as glórias pelo invento do rádio, Landell de Moura abandonou a ciência. Levou sua vida até 1928 apenas no exercício do sacerdócio. Nunca demonstrou raiva ou ressentimento. Compreendia a ignorância humana. [À esquerda: memorial descritivo da Patente Brasileira de Landell de Moura, de 1901 / fonte: wikimedia] Muito da sabedoria de Landell se perdeu por causa do descaso ou pela ação do tempo. Mas o jornalista Hamilton Almeida, maior pesquisador e autor de dois livros s obre o inventor brasileiro, registra que Landell tinha muitas outras investigações científicas. Abordava até a possibilidade de comunicação entre as pessoas diretamente pelo que chamava de logus, ou o verbo mental. São mistérios que, como o próprio Landell disse, teria que levar para o túmulo. Fonte: RHBN |
Cientistas voltam atrás e reconhecem que Tiranossauro Rex foi máquina mortífera
Paleontólogos reabilitaram imagem de predador do famoso dinossauro
Fonte: AFP
Paleontólogos voltaram atrás nesta terça-feira (25) em um acalorado debate sobre a natureza do Tiranossauro Rex (ou T-Rex, como também é conhecido), que de temido predador foi transformado em um comedor de carniça, reabilitando a imagem do famoso caçador da pré-história.
Por mais de um século depois de sua descoberta, muitos cientistas têm descrito rotineiramente o T-Rex como o rei das máquinas mortíferas, com seis toneladas de dentes, músculos e força, projetado para derrubar e destroçar dinossauros muitas vezes maiores do que ele.
Mas ao longo da última década, uma nova escola pintou um novo retrato, menos elogioso, da espécie. Segundo essa teoria, o T-Rex seria apenas um lagarto oportunista, atrapalhado e lento demais para conseguir caçar sozinho. Por esse motivo, ele simplesmente roubaria a refeição depois que predadores mais astutos tivessem feito o trabalho sujo. Em outras palavras, seria mais como uma hiena do que como um leão.
Polêmica começou em 2003
O primeiro ataque às credenciais predatórias do dinossauro carnívoro veio à tona em 2003, quando o especialista americano Jack Horner concluiu que os braços sem garras do T-Rex, os olhos pequenos e as patas pouco ágeis demonstrariam que ele seria "100% carniceiro".
O primeiro ataque às credenciais predatórias do dinossauro carnívoro veio à tona em 2003, quando o especialista americano Jack Horner concluiu que os braços sem garras do T-Rex, os olhos pequenos e as patas pouco ágeis demonstrariam que ele seria "100% carniceiro".
Em 2007, o cientista John Hutchinson da Escola Real de Veterinária, da Grã-Bretanha, desferiu outro golpe na reputação do tiranossauro, ao demostrar que o "desajeitado" dinossauro precisaria de mais de dois segundos para dar uma volta de 45 graus, facilitando a fuga da presa.
Estudo mostra que dino tinha características de caçador
Mas um novo estudo, publicado na revista Royal Society B: Biological Sciences, pode reequilibrar a balança a favor do famoso dinossauro. O cientista Chris Carbone, da Sociedade Zoológica de Londres, e seus colegas dizem que alguns dos traços analisados que levantaram dúvidas sobre a perícia predatória do tiranossauro estão cheios de ambiguidades.
Mas um novo estudo, publicado na revista Royal Society B: Biological Sciences, pode reequilibrar a balança a favor do famoso dinossauro. O cientista Chris Carbone, da Sociedade Zoológica de Londres, e seus colegas dizem que alguns dos traços analisados que levantaram dúvidas sobre a perícia predatória do tiranossauro estão cheios de ambiguidades.
Segundo eles, o olfato apurado, presumido pelos bulbos olfativos aumentados, que é um traço comum entre carniceiros, como os urubus, também pode ajudar um caçador. Eles argumentam também que os olhos do dinossauro não são tão pequenos quanto se pensa e sua visão binocular, juntamente com sua mordida esmagadora e dentes resistentes a impactos, seriam bem adaptados para a caça.
Mas o argumento mais convincente de Carbone não tem nada a ver com os traços físicos do terópode gigante.
"Fizemos uma abordagem ambiental, estabelecendo uma lista completa de todas as espécies na área", explicou o cientista por telefone. "O que é novo é que tiramos conclusões sobre a abundância a partir do tamanho dos animais" no Cretáceo tardio, afirmou, em alusão ao período compreendido entre 85 e 65 milhões de anos atrás, quando o T-Rex reinou absoluto.
Com base em registros fósseis e estudos da distribuição da fauna nas planícies do Serengeti, no leste da África, hoje, Carbone calculou que o ecossistema na época teria sido enormemente habitado por dinossauros menores.
Entre os carnívoros, 80% pesariam cerca de 20 kg, e o T-Rex responderia por 0,1% da população. Entre os herbívoros, geralmente mais pesados, cerca da metade pesava cerca de 75 kg.
Chances de T-Rex se alimentar de carniça são quase nulas
Os cientistas calcularam o perímetro onde o T-Rex poderia se deslocar diariamente, quantos dinossauros mortos de tamanhos diferentes encontraram pelo caminho e outro tipo de alimento que pudesse ser detectado.
Os cientistas calcularam o perímetro onde o T-Rex poderia se deslocar diariamente, quantos dinossauros mortos de tamanhos diferentes encontraram pelo caminho e outro tipo de alimento que pudesse ser detectado.
"Em vista da distribuição de carcaças e da competição potencial com outros dinossauros carnívoros, é extremamente improvável que um Tiranossauro Rex adulto pudesse se alimentar no longo prazo de carniça como estratégia de alimentação sustentável", concluiu o estudo.
Segundo Carbone, cães selvagens e hienas - similares em tamanho e relativamente abundantes tanto quanto dinossauros menores do Cretáceo tardio - "são capazes de reduzir uma carcaça de 70 kg a pedaços de pele e ossos rapidamente, certamente em menos de uma hora".
De acordo com o cientista, um carniceiro lento teria um desempenho muito pior e sofreria as consequências disso.
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Notícia publicada no site r7.com em 25/01/2011
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Paleontologia - Noticias da "Pré-História"
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
| Vegetarianos à força |
| Enquanto a nobreza comia todos os tipos de carne, escravos se atiravam na Baía de Guanabara atrás de miúdos de boi. |
| Pedro Henrique Campos |
Frutas, verduras e grãos. À primeira vista, uma boa dieta, típica de quem quer manter-se “em forma”, como se diz. O termo que deveria estar entre aspas, contudo, é “quer”, pois ele faz toda a diferença. No Rio de Janeiro de D. João VI, escravos mantinham uma dieta muito próxima à dos vegetarianos – mas eram obrigados a isso, por não terem acesso a quase nenhuma proteína animal. Desde o tempo da colônia, muitos historiadores notaram que os hábitos alimentares simbolizavam com perfeição nossa desigualdade social. As pessoas mais ricas preferiam consumir alimentos estrangeiros, especialmente os portugueses, como vinho, pão de trigo, azeite, vinagre, azeitona e queijo. Já os escravos e homens livres pobres se viam obrigados a comer produtos nacionais, como mandioca, feijão, milho, peixe e frutas. Estava materializada na alimentação a distância que separava os proprietários de terra e grandes comerciantes dos demais grupos sociais. No início do século XIX, o Rio era o principal centro urbano do Brasil. Tinha o comércio mais movimentado e era o principal porto do mercado de escravos. Além da sujeira das ruas, das vias estreitas e barulhentas, era a quantidade de escravos o que mais saltava aos olhos de quem visitava a cidade. A vinda da corte portuguesa, em 1808, aumentou enormemente a demanda por cativos para servir à família real, aos funcionários da Coroa e aos cortesãos. Os escravos chegaram a cerca de 60 mil, quase a metade da população urbana. Com mais homens livres e escravos nas ruas, criaram-se dois grandes problemas para os governantes. Em primeiro lugar, temia-se uma “haitização” da capital, ou seja, uma grande rebelião nos moldes da que dominou a colônia francesa do Haiti em 1791, levando à proclamação da sua independência em 1804. O segundo medo era o do desabastecimento de bens. Principalmente os alimentos. O item mais escasso era também um dos mais elementares: a carne. O produto era transportado para a capital na forma de animais vivos – principalmente boiadas vindas das províncias de Minas Gerais e Rio Grande do Sul (os gaúchos tinham o maior rebanho bovino do país) – ou como carne-seca, em navios que costeavam o litoral, no chamado comércio de cabotagem. Com os bois vivos, preparava-se um tipo especial de carne, diferente da carne-seca, que era mais salgada e durava mais. Os bois eram abatidos em matadouro público (na Rua Santa Luzia, no bairro da Glória) e encaminhados aos diversos açougues da cidade. Ali, as pessoas compravam a carne e preparavam-na no mesmo dia, para que não apodrecesse. Era a chamada “carne verde”: mais cara e consumida pelos grupos privilegiados da sociedade: grandes comerciantes, fazendeiros e altos funcionários do governo. Além de escravos, a vinda de D. João VI ao Brasil atraiu também – principalmente a partir de 1815, com o fim das guerras napoleônicas – muitos cientistas, artistas e comerciantes europeus, que mantiveram cartas e diários de viagem. Estes registros revelam que a questão dos hábitos alimentares no Brasil causava grande estranhamento nos viajantes. Eles criticavam o comportamento dos colonos à mesa, a não utilização de talheres e a falta de respeito a etiquetas, inclusive entre os mais ricos. Relatavam, enojados, que era um costume muito comum comer com as mãos, usando apenas uma faca para auxiliar no corte de algum pedaço de carne. Os estrangeiros também notaram muitas diferenças entre a alimentação das pessoas ricas, dos pobres e dos escravos. Segundo relato do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), o horário das refeições variava conforme a condição social. Enquanto os empregados e escravos jantavam por volta das 14 horas, os proprietários e grandes comerciantes faziam a refeição apenas às 18 horas. A sesta após a janta era comum, mas também variava entre as classes: enquanto os ricos cochilavam de duas a três horas, os mais pobres – justamente aqueles que trabalhavam – dispunham de menos tempo para o descanso. Alguns viajantes puderam presenciar as refeições de vários grupos sociais, encontrando grande diferença no cardápio. Debret esteve na casa de um rico comerciante e participou de um banquete, que era ali um hábito usual. Ao descrever o evento, o pintor conta que na mesa havia um “enorme pedaço de carne de vaca, salsichas, tomates, toucinho”. Depois vinham “galinha com arroz” e “uma resplendente pirâmide de laranjas” – tudo acompanhado de frutas e taças com água e vinho Porto e Madeira, mantidas sempre cheias pelos escravos domésticos. Os mais abastados comiam não apenas muita carne, mas em grande variedade – boi, porco e ave. Já os homens pobres livres tinham dificuldades para consumir proteínas animais. Debret nota que um pequeno comerciante carioca comia apenas “um miserável pedaço de carne-seca” com farinha e feijões. Robert Walsh, viajante inglês, relata que “o alimento do pobre é o feijão-preto e a farinha de mandioca. O primeiro é sempre preparado com toucinho e a mandioca é servida também com carne-seca”. A situação dos escravos era ainda pior, tendo que lutar para conseguir comer qualquer espécie de carne. Segundo Debret, viviam “disputando aos animais domésticos os restos de comida”. Em regiões rurais, médicos encontraram escravos que não comiam alimento animal havia anos. Eram verdadeiros vegetarianos à força. Em busca de carne, alguns escravos ficavam próximos ao matadouro, aguardando o momento em que as sobras eram jogadas ao mar. Eles então mergulhavam nas águas da Baía de Guanabara e coletavam os miúdos de boi, para fazer lingüiças e comer junto com feijões. Quando os senhores concediam carne a seus escravos, esta vinha em tão pouca quantidade que muitas vezes era necessário transformá-la em sopa, para que todos pudessem comer. Os cativos também buscavam outros tipos de animais para completar sua dieta, atesta o inglês John Luccock: “tudo quanto tem vida, exceto, talvez, alguns répteis, [...] e todas as criaturas pareciam igualmente bem-vindas pelas classes baixas dos nativos e pretos”. Alguns escravos lançavam mão do roubo para conseguir pedaços de bife. Quando os quartos de bois eram transportados do matadouro para os açougues em carrinhos de mão, assaltavam o transportador para conseguir sua pequena porção diária de alimentação animal. Quem mais recorria aos assaltos eram os chamados escravos de ganho, que podiam se dedicar a diferentes ofícios urbanos por conta própria, devendo pagar boa parte de seu rendimento aos senhores. Não à toa, em 1808, D. João criou a Intendência de Polícia da Corte, que, entre outras funções, tinha que manter a “ordem” na cidade, evitando furtos e toda forma de organização e preparação de uma rebelião escrava na nova capital do Império. No livro Geografia da fome, escrito logo após a Segunda Guerra Mundial, o médico e intelectual Josué de Castro (1908-1973) afirmou que era possível dividir a humanidade entre os que não comem e os que não dormem com medo dos que não comem. Assim vivia a população do Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX: em parte faminta, em parte amedrontada. Fonte: RHBN |
domingo, 9 de janeiro de 2011
Acusado de torturar Dilma dá entrevista: “Era uma coisa comum”
Por Rafael Motta
Um apartamento no Bairro das Astúrias, em Guarujá, é a residência de um militar da reserva acusado pela presidente eleita da República, Dilma Rousseff, de ter presenciado sua torturada em 1970. Segundo ela, em depoimento à Justiça Militar, o oficial também chefiou dois outros militares que compareceram ao presídio Tiradentes e a ameaçaram.
Na ocasião, ela perguntou se eles estavam autorizados pelo Poder Judiciário. E recebeu a seguinte resposta: "Você vai ver o que é o juiz lá na Operação Bandeirante" (um dos centros de tortura da ditadura militar).
Não só nesse presídio, como no Dops paulistano (outro órgão dos aparelhos de segurança), Dilma Rousseff sofreu as seguintes torturas: choques elétricos, pau de arara e palmatória. Teve um dente quebrado e, devido a hemorragias graves, foi levada ao Hospital Central do Exército e ao Hospital das Clínicas.
A Tribuna localizou, no Guarujá, o então capitão e hoje tenente-coronel reformado Maurício Lopes Lima. Ele admite a repressão, mas nega ter seviciado qualquer preso, incluída a presidente eleita. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em abril do ano passado, Dilma afirmou que Lima presenciou as torturas, mas não a agrediu.
O tenente-coronel, de 75 anos, é apontado pelo Ministério Público Federal (MPF), em ação civil pública ajuizada na última quinta-feira, como um dos responsáveis por seis mortes ou desaparecimentos forçados e por tortura a outras 20 em 1969 e1970, no auge da ditadura militar brasileira (1964-1985). Segundo o MPF, o militar foi "chefe de equipe de busca e orientador de interrogatórios" da Operação Bandeirante (Oban) e do DOI/Codi - Departamentos de Operações de Informação dos Centros de Operações de Defesa Interna.
Em quase uma hora de entrevista, o ex-integrante da Oban afirmou ter exercido apenas funções investigativas: "Eu era o chefe da equipe das in vestigações. Tinha o chefe da equipe do interrogatório", cujo nome não declinou. Nesse departamento, seriam aplicados métodos de tortura para obtenção de informações. "Criminoso só fala em juízo. Mas nós tínhamos uma pressa, porque os outros continuavam. Eram verdadeiras quadrilhas de terroristas".
A Oban foi um grupo composto por militares e civis especializados na caça de organizações que se opunham à ditadura, sob a alegação de que seriam terroristas. Foram raras, contudo, ações violentas contra inocentes cometidas pela esquerda. O terrorismo de Estado e de grupos de extrema direita, este sim, era frequente.
Lima, que ocupou a função entre outubro de 1969 e o primeiro bimestre de 1971, é apontado como "partícipe direto de violências em face de" 16 das 26 vítimas apontadas no documento. Os outros citados pelo MPF são os também militares reformados Homero Cesar Machado, Innocencio Fabricio de Mattos Beltrão (ambos do Exército) e João Thomaz (capitão reformado da Polícia Militar). Se a ação for declarada procedente, os quatro serão responsabilizados por torturas e mortes, terão de indenizar as vítimas (entre elas, Dilma) e suas aposentadorias poderão ser cassadas.
A seguir, trechos da entrevista de Maurício Lopes Lima para A Tribuna.
"Todo terrorista passou a ser torturado"
A Tribuna - Como o sr. ingressou na Operação Bandeirante?
Maurício Lopes Lima - Eu fui designado. Se me recusasse, estaria numa posição muito horrível. Mas,aliás,eu fui porque concordava. Discordo totalmente da luta armada. Eu acho que a luta armada tem de ser feita por profissionais, e não por civis irresponsáveis.(...) Houve um tenente que estava no DOI-Codi e teve que se casar. Como não estava programado, então pegaram o capitão Maurício (referindo-se a si mesmo em terceira pessoa), que estava proposto para transferência para a polícia do Exército, ao lado da minha casa, lá no Ibirapuera (na Capital)... Eu escutava até a corneta de lá... "Já que você vai ser transferido, você está sendo designado pro DOI-Codi, pra Operação Bandeirante". E eu fui, e ocupei inicialmente a posição de chefe de equipe de busca. En tão, o que era o chefe de equipe de busca? Nós recebíamos pedidos de busca, vários, escolhíamos aqueles terroristas que tínhamos mais possibilidade de encontrar e encontrávamos o terrorista, ou não o encontrávamos. Como encontrava, não sei, porque às vezes levava tiro, às vezes não levava, então, foi uma coisa totalmente... Na entrada num aparelho (base operacional de supostos terroristas), nós tivemos vários feridos, vários, inclusive, mor tos, no Rio de Janeiro etc.
A Tribuna - Pessoas do Exército morreram nessas ações?
Maurício Lopes Lima - Sim. Nós vamos chegar, então, ao fim da picada, que é a dona Dilma, e é por isso que vocês estão aqui... Com a Dilma aconteceu o seguinte: eu tive três contatos com a Dilma. No primeiro contato, ela foi presa num ponto com, possivelmente, outro integrante (do grupo de guerrilha VAR-Palmares).
Maurício Lopes Lima - Sim. Nós vamos chegar, então, ao fim da picada, que é a dona Dilma, e é por isso que vocês estão aqui... Com a Dilma aconteceu o seguinte: eu tive três contatos com a Dilma. No primeiro contato, ela foi presa num ponto com, possivelmente, outro integrante (do grupo de guerrilha VAR-Palmares).
A Tribuna - Onde foi isso?
Maurício Lopes Lima - Foi em São Paulo. (...) Este foi o primeiro encontro com a Dilma, ela presa e eu, que já chefiava a parte de investigações. Me perguntaram: "Maurício, nós tamos com um problema, aí, que acho que é do comando nacional da VAR-Palmares, a Dilma. Mas nós não temos fotografia, nós não temos nada. Nem xerox consta"... Xerox, naquelas máquinas... Falei: "Eu vou pegar o dossiê e vou conversar com ela". Então, cheguei, e disse: "Dona Dilma Vana Rousseff Linhares. A senhora é membro do comando nacional da VAR-Palmares"... Aí, comecei a contar a história dela: "Nasceu em tanto, de tanto de tanto...". E disse até o nome do marido, dos amantes, de tudo. Aí, no final, eu acho que ela viu que não tinha jeito, que nós íamos identificá-la. Como ela era de Minas (Gerais), nós íamos mandar a identificação pra Minas e, no final, ela disse: "Tá bem, eu sou a Dilma, e tudo...". Eu disse: " Tá bem. Fecha a porta. Ela já reconheceu que não era o que tava na carteira de identidade, carteira falsa". Aí, o pessoal foi conversar com ela. Pronto: foi meu primeiro contato. O segundo contato foi quando ela resolveu entregar alguém. Então, ela saiu comigo e nós fomos dar um passeio. Nós fomos a um local onde funcionava uma fábrica de bombas que, um pouquinho antes, tinha explodido, levando até a mão de uma das terroristas... (...) Eu não tive mais contato com a Dilma. Fui encontrá-la na auditoria militar, em 1970, porque o processo foi julgado e ela foi condenada. Fui uma das testemunhas de acusação. E, assim, cessou meu contato com ela.
Maurício Lopes Lima - Foi em São Paulo. (...) Este foi o primeiro encontro com a Dilma, ela presa e eu, que já chefiava a parte de investigações. Me perguntaram: "Maurício, nós tamos com um problema, aí, que acho que é do comando nacional da VAR-Palmares, a Dilma. Mas nós não temos fotografia, nós não temos nada. Nem xerox consta"... Xerox, naquelas máquinas... Falei: "Eu vou pegar o dossiê e vou conversar com ela". Então, cheguei, e disse: "Dona Dilma Vana Rousseff Linhares. A senhora é membro do comando nacional da VAR-Palmares"... Aí, comecei a contar a história dela: "Nasceu em tanto, de tanto de tanto...". E disse até o nome do marido, dos amantes, de tudo. Aí, no final, eu acho que ela viu que não tinha jeito, que nós íamos identificá-la. Como ela era de Minas (Gerais), nós íamos mandar a identificação pra Minas e, no final, ela disse: "Tá bem, eu sou a Dilma, e tudo...". Eu disse: " Tá bem. Fecha a porta. Ela já reconheceu que não era o que tava na carteira de identidade, carteira falsa". Aí, o pessoal foi conversar com ela. Pronto: foi meu primeiro contato. O segundo contato foi quando ela resolveu entregar alguém. Então, ela saiu comigo e nós fomos dar um passeio. Nós fomos a um local onde funcionava uma fábrica de bombas que, um pouquinho antes, tinha explodido, levando até a mão de uma das terroristas... (...) Eu não tive mais contato com a Dilma. Fui encontrá-la na auditoria militar, em 1970, porque o processo foi julgado e ela foi condenada. Fui uma das testemunhas de acusação. E, assim, cessou meu contato com ela.
A Tribuna - O sr. deve ter lido o depoimento dela (na auditoria), em que ela não o considerava testemunha porque o sr. "foi um dos torturadores da Organização Bandeirante".
Maurício Lopes Lima - Não. Eu não sei de onde vem. Ela mesma reconhece u que eu não a torturei... (Levanta-se e traz recorte do jornal Folha de S. Paulo, onde consta que o "capitão [posto que Lima ocupava em 1970] presenciou sessões, mas não a agrediu"). Eu não presenciei. Eu nego. Eu não sei onde arranjaram.
Maurício Lopes Lima - Não. Eu não sei de onde vem. Ela mesma reconhece u que eu não a torturei... (Levanta-se e traz recorte do jornal Folha de S. Paulo, onde consta que o "capitão [posto que Lima ocupava em 1970] presenciou sessões, mas não a agrediu"). Eu não presenciei. Eu nego. Eu não sei onde arranjaram.
A Tribuna - Estou vendo, aqui, um parágrafo da entrevista que a Folha fez no ano passado: "Dilma afirmou que Lima presenciou as torturas, mas não realizou pessoalmente nenhuma agressão contra ela".
Maurício Lopes Lima - Então, já começa a haver conflito. Se, de um lado, eu sou torturador, não torturei por quê? Porque ela era bonita? Ela era horrível (ri). Hoje, a Dilma é muito mais bonita.
Maurício Lopes Lima - Então, já começa a haver conflito. Se, de um lado, eu sou torturador, não torturei por quê? Porque ela era bonita? Ela era horrível (ri). Hoje, a Dilma é muito mais bonita.
A Tribuna - O sr. disse que foi destacado...
Maurício Lopes Lima - Fui designado para a Operação Bandeirante. Foi uma coisa interna.
Maurício Lopes Lima - Fui designado para a Operação Bandeirante. Foi uma coisa interna.
A Tribuna - Não era uma função de chefia, de comando?
Maurício Lopes Lima - Não, eu substituí outro que já estava.
Maurício Lopes Lima - Não, eu substituí outro que já estava.
A Tribuna - Mas essa sua substituição, mesmo o sr. dizendo não ter agido diretamente em sessões de tortura, no caso de Dilma, não poderia torná-lo também responsável, de forma solidária, pelo fato de exercer função de comando?
Maurício Lopes Lima - É aquele negócio: nós estávamos numa guerra; eu estava de um lado. Lógico que eu sou contrário ao outro lado. Agora, é uma coisa, também, que repórter não entende: o que é segurança? Em assuntos de segurança, quanto menos você sabe, menos responsável você é. Então, nós éramos setorizados. Não é que eu não pudesse saber: eu não queria saber. Eu não vou... Quanto menos eu soubesse, menos responsável eu seria, pelo sigilo.
Maurício Lopes Lima - É aquele negócio: nós estávamos numa guerra; eu estava de um lado. Lógico que eu sou contrário ao outro lado. Agora, é uma coisa, também, que repórter não entende: o que é segurança? Em assuntos de segurança, quanto menos você sabe, menos responsável você é. Então, nós éramos setorizados. Não é que eu não pudesse saber: eu não queria saber. Eu não vou... Quanto menos eu soubesse, menos responsável eu seria, pelo sigilo.
A Tribuna - De certa forma, não sabia de tudo?
Maurício Lopes Lima - Quase não sabia. E, principalmente... Ela (Dilma) tem uma outra alegação: que foram dois elementos da minha equipe no presídio Bandeirantes (na verdade, Tiradentes) ameaçá-la. Nunca nenhum dos meus elementos da equipe cumpriu uma ordem que eu não determinasse. Eu estava à testa de tudo. E eu não determinei e eles não fizeram.
Maurício Lopes Lima - Quase não sabia. E, principalmente... Ela (Dilma) tem uma outra alegação: que foram dois elementos da minha equipe no presídio Bandeirantes (na verdade, Tiradentes) ameaçá-la. Nunca nenhum dos meus elementos da equipe cumpriu uma ordem que eu não determinasse. Eu estava à testa de tudo. E eu não determinei e eles não fizeram.
A Tribuna - Agora, quanto a interrogatórios mais duros, em sessões de tortura...
Maurício Lopes Lima - Tortura. Pode ter havido tor- tura de ambos os lados. Eu sou uma testemunha da tortura. Sim, eu sou. Eu comandei a equipe que desenterrou o capitão Mendes (Alberto Mendes Júnior, da Polícia Militar, morto em 10 de maio de 1970 em Sete Barras, no Vale do Ribeira, durante perseguição ao ex-capitão do Exército Carlos Lamarca) em Registro, e ele foi morto sob tortura. Lamarc a e mais cinco julgaram o capitão Mendes e o condenaram no justiçamento. O Brasil passou a ter pena de morte.
Maurício Lopes Lima - Tortura. Pode ter havido tor- tura de ambos os lados. Eu sou uma testemunha da tortura. Sim, eu sou. Eu comandei a equipe que desenterrou o capitão Mendes (Alberto Mendes Júnior, da Polícia Militar, morto em 10 de maio de 1970 em Sete Barras, no Vale do Ribeira, durante perseguição ao ex-capitão do Exército Carlos Lamarca) em Registro, e ele foi morto sob tortura. Lamarc a e mais cinco julgaram o capitão Mendes e o condenaram no justiçamento. O Brasil passou a ter pena de morte.
A Tribuna - Conforme convenções internacionais, o crime de tortura, independentemente do lado, é imprescritível e, mesmo havendo, como no Brasil, a Lei da Anistia, se entende que pode haver a obrigatoriedade de sanções a quem participou disso.
Maurício Lopes Lima - Não, não aceito. Não aceito porque a tortura, no Brasil, era uma coisa comum.
Maurício Lopes Lima - Não, não aceito. Não aceito porque a tortura, no Brasil, era uma coisa comum.
A Tribuna - Dos dois lados?
Maurício Lopes Lima - Não, da polícia nossa. Era uma coisa normal. Sua empregada roubou, você a levava lá à delegacia, aí o delegado já (dizia): "Pode deixar que a gente vai dar um pau nela". Dali a um pouquinho, ela voltava. Pegou um dinheiro, emprestou pra fulano de tal, tá em tal lugar... Então, é comum, em todas as delegacias do B rasil. Então, esse negócio de dizer que tortura... Todo terrorista passou a ser torturado. Todo. Não tem exceção.
Maurício Lopes Lima - Não, da polícia nossa. Era uma coisa normal. Sua empregada roubou, você a levava lá à delegacia, aí o delegado já (dizia): "Pode deixar que a gente vai dar um pau nela". Dali a um pouquinho, ela voltava. Pegou um dinheiro, emprestou pra fulano de tal, tá em tal lugar... Então, é comum, em todas as delegacias do B rasil. Então, esse negócio de dizer que tortura... Todo terrorista passou a ser torturado. Todo. Não tem exceção.
A Tribuna - O sr. nunca chegou a participar diretamente de sessões de tortura?
Maurício Lopes Lima - Não, não, não, não. Dentro do setor de investigações, são investigações. Agora, quando você fala em depoimentos, é outra coisa. Aí, eu caio fora...
Maurício Lopes Lima - Não, não, não, não. Dentro do setor de investigações, são investigações. Agora, quando você fala em depoimentos, é outra coisa. Aí, eu caio fora...
A Tribuna - O sr. votou nesta eleição (não era obrigado, por ter mais de 70 anos)?
Maurício Lopes Lima - Votei,o voto é secreto (risos). Eu poderia dizer que votei na Dilma, e aí, "ótimo, tá vendo, Dilma? O Maurício é bonzinho e votou em você, tá?". Poderia dizer que votei no (José) Serra, que é uma péssima escolha, mas eu poderia votar nele também.
Maurício Lopes Lima - Votei,o voto é secreto (risos). Eu poderia dizer que votei na Dilma, e aí, "ótimo, tá vendo, Dilma? O Maurício é bonzinho e votou em você, tá?". Poderia dizer que votei no (José) Serra, que é uma péssima escolha, mas eu poderia votar nele também.
A Tribuna - Particularmente para o sr., com o foi lidar com a família naquele período?
Maurício Lopes Lima - Lidar com a família foi um pouco difícil. Depois que houve a Anistia, a minha família foi punida.
Maurício Lopes Lima - Lidar com a família foi um pouco difícil. Depois que houve a Anistia, a minha família foi punida.
A Tribuna - De que maneira?
Maurício Lopes Lima - Funções. A minha ex-esposa (historiadora) perdeu o cargo (num programa na TV Cultura) e foi tirada de lado porque era esposa de militar. O que dizer para a minha esposa? Antes eu mandava, agora não mando mais. Então, fica difícil explicar as coisas.
Maurício Lopes Lima - Funções. A minha ex-esposa (historiadora) perdeu o cargo (num programa na TV Cultura) e foi tirada de lado porque era esposa de militar. O que dizer para a minha esposa? Antes eu mandava, agora não mando mais. Então, fica difícil explicar as coisas.
Fonte:Tribuna de Santos
sábado, 8 de janeiro de 2011
Feiura, não
| Médico dá instruções sobre embelezamento na década de 1920. Para ele, a fealdade podia ser causada até por vício |
| Por Christianne Theodoro de Jesus |
Um ser degenerado, de uma raça que precisava ser melhorada. Esta era uma ideia comum sobre o mestiço brasileiro no fim do século XIX e no início do XX. Discussões acaloradas no meio científico nacional se preocuparam com o aspecto físico desse indivíduo. O médico Renato Kehl (1889-1974), autor do livro A cura da fealdade(Editora Monteiro Lobato, 1923) – guardado na Divisão de Obras Gerais da Biblioteca Nacional – era um dos que se dedicaram a esse tema. Mas a abrangência de seus estudos é tão ampla que é difícil definir o que ele considerava feio: ia desde narizes achatados a doenças como raquitismo e sífilis. Mesmo admitindo que a feiúra podia ter diversas causas – ambientais, climáticas, hereditárias etc. – Kehl assegurava que “são elas, em grande número, devido aos próprios indivíduos, adquiridas por desleixo, ignorância ou por vício”. A crença na medicina e no poder da eugenia – teoria que propunha o melhoramento das raças – levou o médico a afirmar, num tom quase profético, que a beleza perdida podia ser recuperada por meios cirúrgicos: “o homem, capaz de talhar no mármore a Vênus de Milo, é capaz também de moldar plasticamente toda a humanidade”. Aliás, “moldar plasticamente” acabou se tornando uma profissão muito rentável. A preocupação com o casamento ocupa boa parte do capítulo “A fealdade se evita”. Uma das propostas de Kehl para a prevenção da fealdade era a criação de um “exame de sanidade pré-nupcial”, obrigatório para todos os candidatos ao matrimônio, que determinaria “a proibição formal [do enlace] àqueles que não estejam em condições de higidez [saúde]”. O médico desaconselhou enfaticamente a viagem de lua de mel “tão em voga entre as famílias abastadas, por serem perniciosas (...). A pobre esposa (...) submete-se, nessa ocasião, a um traumatismo que abalará todo o seu ser, e é este o momento que escolhe para ajuntar às excitações conjugais”. Entre os traumas estavam trepidações de trem e corridas cansativas, que poderiam causar abortos. Os procedimentos estéticos atuais deixariam Renato Kehl de cabelo em pé: acreditando que o avanço da medicina seria responsável pelo embelezamento dos indivíduos, rechaçava a maioria dos meios artificiais para aumentar a beleza da mulher. Considerava que “não consiste a terapêutica [para eliminar a feiura] em artifícios de toucador, em cremes, pomadas, tinturas”, métodos causadores de mudanças superficiais e criadores de “beldades falsas”. O projeto de Kehl incluía um amplo programa de reforma do indivíduo, baseado não só na higiene corporal, mas também na educação moral – que fornecesse às pessoas, sobretudo às crianças, noções de “deveres individuais, de família e de pátria” – e nas intervenções cirúrgicas. Para o embelezamento do conjunto “crânio-facial”, nada mais indicado que uma massagem manual para tonificar a pele e exercícios para a musculatura da face; no tratamento dos incômodos cravos, pomada composta de cânfora, ácido fênico, vaselina e mentol. O uso de chapéus apertados devia ser evitado por homens e mulheres, pois contribuía para o enfraquecimento dos cabelos. Kehl também desaprovaria as técnicas utilizadas em larga escala nos salões de cabeleireiro de hoje: não se devia, segundo ele, “mantê-los aprisionados entre grampos e cremes”, muito menos “submetê-los à ação dos frisadores, fortemente aquecidos, que têm a desvantagem de queimá-los”. Para a robustez do corpo, o médico indicava diversos exercícios físicos com gráficos mostrando a postura correta para evitar deformações na coluna. O asseio também devia ser impecável, tanto para a saúde como para evitar embaraços: quando há “falta de higiene e a troca rara de meias (…) os pés, nessas condições, exalam um cheiro forte e nauseabundo, incomodando não só o paciente como as pessoas com quem convive”. O estudo do médico se baseava no legado de Francis Galton (1822-1911), o pai da eugenia. Kehl, que criaria em 1931 o Comitê Central do Eugenismo – um dos seus objetivos seria divulgar as teorias eugênicas de regeneração moral e física dos indivíduos –, escreveu mais de 500 páginas sobre a eliminação da feiúra, expondo vários métodos para atenuar ou eliminar os traços indesejados, uma “profilaxia da fealdade”. Ele partia das seguintes premissas: “a fealdade não é atributo natural da espécie humana” e “a beleza humana depende, na maioria das vezes, dos próprios indivíduos, bem como a fealdade”. Fonte: RHBN |
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