sábado, 19 de março de 2011


Os brutos que conquistaram o Brasil

Eles eram bárbaros sanguinários. Matavam velhos e crianças e escravizavam por dinheiro. Mas sem os bandeirantes o país terminaria em São Paulo.


Por André Toral, com Giuliana Bastos

Ilha do Bananal, atual Estado de Tocantins, ano de 1750. Um grupo de homens descalços, sujos e famintos se aproxima de uma aldeia carajá. Cautelosamente, convencem os índios a permitir que acampem na vizinhança. Aos poucos, ganham a amizade dos anfitriões. Um belo dia, entretanto, mostram a que vieram. De surpresa, durante a madrugada, invadem a aldeia. Os índios são acordados pelo barulho de tiros de mosquetão e correntes arrastando. Muitos tombam antes de perceber a traição. Mulheres e crianças gritam e são silenciadas a golpes de machete. Os sobreviventes do massacre, feridos e acorrentados, iniciam, sob chicote, uma marcha de 1 500 quilômetros até a vila de São Paulo — como escravos.
Foi assim, à força, que os bandeirantes conquistaram o Brasil. Caçadores profissionais de gente, chegaram a lugares com os quais Pedro Álvares Cabral nem sonharia. Nas andanças em busca de ouro e índios para apresar, descobriram o Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Tocantins. Percorreram e atacaram povoações espanholas nos atuais Peru, Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai. Espalharam o terror entre os povos do interior do continente e expandiram as fronteiras da América portuguesa. Uma história brutal. Mas, se não fossem eles, você talvez falasse espanhol hoje. Os maiores trunfos desse avanço eram o conhecimento do sertão e uma disposição que intrigava até os inimigos. O padre jesuíta espanhol Antonio Ruiz de Montoya (1585-1652), por exemplo, escreveu que os paulistas, a pé e descalços, andavam mais de 2 000 quilômetros por vales e montes "como se passeassem nas ruas de Madri". A coragem deles também era extraordinária. Além de terras desconhecidas, sempre enfrentaram temíveis grupos indígenas dispostos à briga. E nem sempre se davam bem. Muitos morreram de fome, em terras estéreis, ou crivados de flechas.
Os grandes perdedores, no entanto, foram os índios. Nas tribos visitadas pelos bandeirantes não ficava palha sobre palha. Muitos territórios viraram desertos humanos, ocupados, depois, por súditos portugueses. Por isso, hoje quase não se vêem índios em São Paulo, Minas Gerais, na Bahia e no Nordeste em geral. No aniversário de 500 anos do Descobrimento, a SUPER traz um retrato desses homens e da aventura que desenhou, com violência, um novo mapa do Brasil.

De costas para o mar, de olho no sertão
De todos os núcleos de colonização portuguesa no Brasil do século XVI, São Paulo era o único que não ficava no litoral e não dependia do comércio com a Europa. A sobrevivência da vila, nos seus primórdios, era garantida pela esperta política de alianças do cacique tupiniquim Tibiriçá, que havia casado sua filha com o português João Ramalho. Seus guerreiros conseguiam cativos de outras tribos para as lavouras dos primeiros colonos.
Ao perceber que não conseguiria chegar pelo sul do Brasil às cobiçadas minas de ouro e prata do Peru, a Coroa portuguesa abandonou os paulistas à própria sorte. Aos bandeirantes restou a exploração do ouro vermelho, os índios. Assim começou o "negócio do sertão", como era chamado o ofício da caça de gente, base da economia paulista até o século XVIII.
A mão-de-obra escrava foi a base do desenvolvimento de prósperas plantações de trigo no século XVI ao XVII, vizinhas à cidade. Áreas rurais, como Cotia e Santana de Parnaíba, abasteciam São Vicente e Rio de Janeiro, os centros produtores de açúcar, a maior mercadoria da colônia.
"Até há pouco pensava-se que os bandeirantes capturavam índios para exportar para as plantações de cana no litoral", disse à SUPER o historiador John Monteiro, da Universidade Estadual de Campinas. "Mas hoje sabemos que a maioria dos cativos ia para as lavouras dos próprios bandeirantes", ressalta. Enquanto houve índios, o interior de São Paulo foi o celeiro do Brasil colonial.
Se o campo era rico, o mesmo não se pode dizer da precária vila, que em 1601 tinha apenas 1 500 habitantes. Em nada se comparava à solidez dos núcleos canavieiros do Nordeste, como Olinda ou Salvador. São Paulo era umas poucas casas de pau-a-pique espalhadas no meio do mato, entre ruas sujas e barrentas (veja infográfico).
Um visitante sofreria para achar um endereço. Primeiro porque as ruas não tinham nome. Depois, não conseguiria, mesmo, entender os paulistas: quase todos eles eram índios ou mestiços e falavam a "língua geral", um dialeto tupi. Aliás, o nome completo da vila era São Paulo de Piratinininga, que quer dizer "peixe seco" no idioma indígena. O português era de uso quase exclusivo da minoria branca. Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda, 83% da população paulista no século XVII era indígena. O bilingüismo só acabaria de vez em 1759, quanto a língua geral foi proibida pelas autoridades portuguesas, por decreto.
Em São Paulo, rico era quem tinha talheres — só dez famílias possuíam — e camas. Isso mesmo: camas. Em 1620, um representante do rei de Portugal em visita à cidade simplesmente não tinha onde dormir. A solução foi confiscar a única cama decente da cidade, que pertencia a um cidadão chamado Gonçalo Pires.

Por cima do Tratado de Tordesilhas
A cidade de Guaíra é hoje um discreto centro produtor de soja com 30 000 habitantes, 680 quilômetros a oeste de Curitiba, no Paraná. Em 1600, no entanto, tinha importância estratégica. Chamava-se Ciudad Real del Guayra e era capital da província de Guayrá, subordinada a Assunção, capital do Vice-Reinado do Prata espanhol. O Guayrá abrangia 80% do atual território paranaense.
Localizada dentro das terras atribuídas à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas — que em 1492 dividira os territórios espanhóis e portugueses na América — a província abrigava vilas espanholas e doze missões jesuíticas, que congregavam grande parte dos índios guaranis da região. Era uma verdadeira mina de escravos para os paulistas, já que os guaranis eram um povo agrícola que falava um idioma semelhante à lingua geral de São Paulo. Só que os padres e fazendeiros espanhóis impediam o acesso dos índios aos colonos portugueses. Por isso, os moradores de São Paulo defendiam abertamente uma invasão militar da região. Mas Portugal insistia em manter uma política de boa vizinhança com os espanhóis e respeitar a fronteira.
Foram os próprios castelhanos que cutucaram a onça primeiro e vieram apresar índios perto de São Paulo. Era a desculpa que os bandeirantes esperavam. Em 1619, um exército de 2 000 índios e 900 mestiços invadiu aldeias e missões no Guairá, capturando guaranis. Hordas foram enviadas acorrentadas para São Paulo. Era o começo do fim do Tratado de Tordesilhas.
Nos anos seguintes o território das missões sofreu na mão dos bandeirantes. Logo as expedições militares que partiam de São Paulo passaram a atacar também as missões de Tape, conquistando a maior parte das terras que séculos depois formaria o atual Estado do Rio Grande do Sul, além das missões do Itatim, hoje no sul do Mato Grosso do Sul. Segundo o historiador John Monteiro, até 1641 os paulistas destruíram entre onze e catorze missões jesuíticas espanholas. Cada uma tinha entre 3 000 e 5 000 índios, o que daria entre 33 000 e 55 000 índios escravizados.
Nesse apresamento, os bandeirantes tiveram um auxiliar poderoso: as epidemias contraídas pelos índios dos espanhóis, uma vez aldeados nas missões. "Muitas vitórias dos bandeirantes no Guayrá podem ter ocorrido porque os guaranis já estavam enfraquecidos pelas doenças", ressalta o arqueólogo Francisco Noelli, da Universidade Federal de Maringá, no Paraná.
O avanço dos paulistas sobre o território espanhol só diminuiu depois da derrota para os guaranis na Batalha de M’bororé, em 1641 (veja acima). Depois daquela data, a caça ao índio passou a ser praticada por expedições menores. Uma vez encerrado o apresamento fácil dos bons escravos guaranis nas missões, os bandeirantes mudaram de rumo: passaram a buscar, no noroeste de São Paulo, índios mais selvagens, que não plantavam e não falavam tupi, os bravos jês. Viraram-se para o Centro-Oeste.

A corrida em busca de ouro
Sem os escravos guaranis, as plantações de São Paulo entraram em declínio. Os recursos passaram a ser canalizados para a busca de ouro e pedras preciosas, como esmeraldas, mais ao norte. As bandeiras se esticaram. Em 1648, Antonio Raposo Tavares (1598-1659) viajou 10 000 quilômetros a pé e de canoa, de São Paulo ao Paraguai, e de lá até Mato Grosso, Amazonas e Pará. Andou quatro anos.
Ao mesmo tempo, as expedições de apresamento de índios tornaram-se menores, multiplicando-se as armações, as entradas familiares que reuniam uns vinte homens. Eram modestas, mas eficientes. Uma das tribos sistematicamente caçadas e escravizadas a partir de 1670, a dos goyás, acabou dando o nome ao Estado onde vivia: Goiás.
Em 1692 a persistência expansionista foi recompensada com a descoberta de jazidas em Ouro Preto, no atual Estado de Minas Gerais. Tão logo a notícia do ouro chegou a Portugal, a Coroa distribuiu os direitos de exploração a lusos e comerciantes do Rio de Janeiro, passando a perna nos bandeirantes. Para piorar, contrabandistas da Bahia também se meteram por ali. Os paulistas reagiram. Em 1709, armaram-se em bandos de índios e mamelucos e partiram para cima dos forasteiros, chamados de emboabas ("galinhas de bota", em tupi). A Guerra dos Emboabas acabou em 1711 com a expulsão dos paulistas. Com eles fora, em 1720, criou-se a capitania de Minas Gerais. Vila Rica de Ouro Preto virou capital.
Aos bandeirates restou continuar procurando ouro. Alguns, como Bartolomeu Bueno da Silva (1672-1740), o Anhangüera, partiram atrás da mítica Serra dos Martírios, cujos montes — dizia-se — eram feitos de ouro puro. Depois de três anos vagando pelo cerrado, Anhangüera achou metal precioso nas terras dos goyás e fundou, em 1725, a cidade de Goiás.
As descobertas atraíam bandeirantes como ímã, mas não só eles. Em 1719, quando a notícia da descoberta das minas de Cuiabá chegou a São Paulo, seus habitantes migraram em massa em direção às lavras do distante arraial. Surgiram, assim, as monções — as expedições fluviais.
Mas chegar até o eldorado não era fácil. O extermínio dos guaranis-itatim do Mato Grosso, décadas antes, havia provocado um efeito colateral: a migração dos paiaguás para o Rio Paraguai, bem na rota das monções. Os paiaguás formavam frotas para assaltar os barcos dos paulistas. Para complicar, eles se aliaram a outra poderosa tribo, a dos guaicurus, que usavam cavalos roubados dos espanhóis. O poderio dessa aliança indígena foi suficiente para levar os castelhanos, em 1740, a fazer um tratado de paz com eles, algo inédito na América até então. Em 1727, depois do massacre de uma monção, os portugueses declararam guerra aos índios. Os conflitos terminariam em 1782, com um armistício. Os guaicurus, que atualmente se chamam kadiwéus e moram no Mato Grosso do Sul, até hoje se orgulham disso.

Tropa de choque no Nordeste
O bispo de Olinda, dom Francisco de Lima, ficou horrorizado quando recebeu, em 1694, a visita do paulista Domingos Jorge Velho. Diria depois que "era o maior selvagem com quem já havia topado" e que foi preciso um intérprete, pois o brutamontes só falava tupi. O bandeirante havia sido contratado pelo governador de Pernambuco para acabar com o pesadelo dos senhores de engenho nordestinos: o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, oeste de Alagoas. Palmares era um conjunto de aldeias fortificadas que abrigava escravos fugidos — mas também índios, muçulmanos, brancos marginalizados e judeus (veja SUPER nº 11, ano 9). Desde 1654, seus guerreiros resistiam aos holandeses e às expedições militares mandadas contra eles. Mas não resistiriam aos índios e mestiços guerreiros do "selvagem" Jorge Velho — que, aliás, falava e escrevia em português. O bispo exagerou no desdém.
Como Domingos Jorge Velho, outros bandeirantes embarcaram para o Nordeste entre 1657 e 1720 atendendo a chamados de administradores regionais. O objetivo era combater grupos indígenas que não aceitavam a ocupação de suas terras pelos criadores de gado. As guerras contra os índios eram consideradas "justas" e os cativos eram declarados escravos. Criou-se assim o "sertanismo de contrato", com bandeirantes convertidos em mercenários, recebendo os índios que capturassem como pagamento. O resultado foi a eliminação de vários grupos nordestinos, como os anayos, os maracás e os janduins. Muitos paulistas receberam terras e viraram criadores de gado na região do Rio São Francisco.
Com o fim da expansão mineradora e das guerras contra os índios no Nordeste, o ímpeto bandeirante arrefeceu. Em São Paulo, o declínio demográfico dos escravos e a dificuldade crescente de repor a mão-de-obra das fazendas do interior acabou pondo a economia paulista em xeque. Na primeira metade do século XVIII, sem índios e sem poder comprar escravos africanos, que custavam o dobro, as lavouras do interior paulista se estagnaram. Com isso, o "negócio do sertão" perdeu o motor. Os bandeirantes, que se lançaram como gafanhotos sobre o sertão por 200 anos, haviam descoberto um novo país. Mas acabaram tão pobres quanto antes.

Para saber mais
Negros da Terra — Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo, John Manuel Monteiro, Cia. das Letras, 1994.


quarta-feira, 2 de março de 2011


Para os meus alunos da 8ª série [9º ano] do colégio Porto Carreiro

Revolução Russa: todo o poder aos comunas

Em outubro de 1917, os revolucionários liderados por Lenin finalmente assumen controle do estado - e começam a construir o primeiro país socialista do mundo

por Isabel Butcher
As ruas de Petrogrado estão sujas, cobertas com a lama trazida pelas chuvas fortes dos últimos dias. E ninguém parece estar muito preocupado com isso – simplesmente não há um serviço público de limpeza. O sistema de iluminação também não funciona. Resultado: à noite, a escuridão é tamanha que chega a dar medo. Por um lado, isso é bom, ajuda a evitar ataques noturnos feitos pelos dirigíveis alemães – a Primeira Guerra Mundial está em curso e tropas inimigas estão bem perto da cidade. Por outro, facilita a ação de vândalos, ladrões e assaltantes.
Esse estado de calamidade pública tem explicação: a falência do Governo Provisório. Na verdade, ele pouco governa, pois a Rússia – como havia acontecido em 1905 – vive uma dualidade de poderes. Enquanto o primeiro-ministro Alexander Kerenski se esforça como pode para colocar alguma ordem no país, quem manda de fato é o Soviete de Petrogrado, presidido por Trotski. A Rússia é o retrato do caos. No campo, o número de conflitos aumenta sem parar. Nos fronts da Primeira Guerra, soldados desertam em massa. Nas cidades, os comitês de fábrica controlam a produção e o abastecimento. Kerenski, que havia encontrado nos bolcheviques uma força capaz de evitar um golpe militar, agora enxerga neles uma grande ameaça.
Lenin está na Finlândia. Mantém-se informado sobre a evolução dos fatos graças à intensa correspondência trocada com seus camaradas em território russo. No dia 7 de setembro, ele retorna clandestinamente a Petrogrado para uma reunião secreta do comitê central bolchevique. Sua proposta é simples e objetiva: desencadear uma insurreição armada.
O Governo Provisório ameaça mudar a capital para Moscou, sob o pretexto de escapar das tropas alemãs, que se aproximam cada vez mais. Para os revolucionários que controlam a cidade, essa medida seria catastrófica. Petrogrado acabaria sendo entregue de bandeja aos inimigos, enquanto o núcleo do poder se afastaria dos bolcheviques mais incômodos de toda a Rússia. Em resposta, o soviete local cria o Centro Militar Revolucionário. Trata-se de uma força armada, bem organizada e disciplinada, com o objetivo de levar a cabo a revolução. O sonho de Lenin é dos mais ousados, exige absoluta disciplina: ele planeja criar o primeiro Estado socialista do mundo, sem exploradores nem explorados.
Contagem progressiva
Em outubro, o céu de Petrogrado continua cinzento e com cara de chuva. Mas logo os bolcheviques tratarão de colori-lo com fortes tons de vermelho. Nos últimos dias, eles haviam crescido bastante, passando a controlar quase todos os sovietes mais importantes da Rússia. Os conselhos populares não vacilam: além de pão, paz e terra, passam a exigir que o Governo Provisório entregue o próprio regime aos revolucionários. Agora, não tem mais jeito. A revolução comunista aproxima-se a passos largos. Como em um seriado de TV, um fato decisivo aconteceria a cada hora, durante cinco dias seguidos.
Democracia às favas
Deposto o Governo Provisório, não demoraria para que os revolucionários enfrentassem um sério problema de relacionamento com a democracia. Em novembro de 1917, o resultado da eleição para a Assembléia Constituinte é desastroso para os bolcheviques. A maioria dos assentos no parlamento será ocupada por socialistas moderados, socialistas revolucionários de direita, mencheviques e liberais. Aos líderes da revolução, caberiam apenas 25% das cadeiras. Em janeiro de 1918, a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado, apresentada por Lenin, é rejeitada pela assembléia. A aprovação desse documento era de fundamental importância para seus interesses. Afinal, ele criaria o alicerce sobre o qual a sociedade comunista seria construída: proclamação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), coletivização das terras, controle operário sobre as indústrias e autonomia para as nacionalidades não-russas, entre outras medidas. O líder bolchevique não teve dúvida: ao ser informado da rejeição, manda dissolver o parlamento.
Lenin estava disposto a pagar qualquer preço para tirar a Rússia da Primeira Guerra Mundial. E acabaria pagando caro. Depois de meses de negociações, russos e alemães assinam o Tratado de Brest-Litovsk. Os bolcheviques comprometem-se a entregar ao inimigo a Ucrânia e os países bálticos, além de alguns distritos turcos e georgianos. Nem a extraordinária oratória de Trotski – um dos principais negociadores – foi capaz de reverter a situação. A Rússia sairia perdendo bastante com o acordo, mas faria a paz com a Alemanha. “Esse cessar-fogo foi péssimo para os Aliados [Grã-Bretanha, França e EUA]”, diz o professor Márcio Scalerio, do Departamento de História da PUC do Rio de Janeiro. “Os alemães puderam transferir todas as divisões que estavam na frente russa para o front ocidental. Cerca de 45 divisões do Exército foram transferidas. Para os Aliados, os Russos tinham se transformado em traidores.”
Em junho de 1918, o recém-nascido regime soviético decreta a nacionalização de setores industriais essenciais, como minas e energia, metalurgia, indústria têxtil e de material elétrico. Ao campo caberá a missão de libertar a Rússia da fome. Já não existem senhores de terras como na época do czar. Mas nem todos os camponeses são miseráveis. A burguesia rural ainda não foi inteiramente eliminada. E existem também os agricultores que, embora não sejam propriamente “burgueses”, são considerados “ricos”. Quando acusados de sonegar parte da produção e “especular com a fome do povo” no mercado negro, eles passam a receber a visita dos chamados Destacamentos de Ferro, segundo o historiador Daniel Aarão Reis Filho, da Universidade Federal Fluminense (UFF), “grupos de operários armados que iam ao campo descobrir celeiros de grãos, expropriá-los e enviá-los às cidades”.
Ao mesmo tempo, os bolcheviques tentam desesperadamente conquistar os camponeses mais pobres. Esses, sim, são a maioria. E mal conseguem produzir o bastante para o sustento da família. A estratégia é simples: a união de operários e camponeses facilitará a instauração da “ditadura do proletariado”, uma das etapas previstas por Marx na caminhada rumo ao comunismo. Em um dado momento, porém, já não se distingue entre camponeses ricos e “menos pobres”. Os ataques e confiscos generalizados levam ao rompimento da aliança entre bolcheviques e socialistas revolucionários de esquerda – ainda a corrente política mais forte e influente no campo. Os socialistas revolucionários abandonam o governo e partem para a oposição, dispostos a pegar em armas. Uma guerra civil parece inevitável.
22 de outubro
O Soviete de Petrogrado promove manifestações em toda a cidade – um teste para descobrir se realmente conta com o respaldo necessário da população. Nesse mesmo dia, o conselho popular ganha uma adesão importante: a guarnição da Fortaleza de Pedro e Paulo, com todo o seu arsenal. Mais de cem mil fuzis caem nas mãos do soviete e são distribuídos entre os revolucionários.
23 de outubro
Desesperado, o primeiro-ministro do Governo Provisório, Alexander Kerenski, decide fechar o jornal bolchevique Soldat e chamar tropas que ainda estão nos fronts da Primeira Guerra Mundial para defender o regime e reprimir seus adversários.
24 de outubro
O jornal Soldat é fechado por ordem de Kerenski. Mas o Soviete de Petrogrado envia suas tropas revolucionárias para reabri-lo. Agora, não resta mais dúvida sobre quem manda. Os bolcheviques têm um plano de ação: ocupar os correios e telégrafos, controlar as estações ferroviárias e atacar o núcleo do Governo Provisório. Comandando tudo a partir de um esconderijo, Lenin está ansioso e não pára de distribuir ordens. As forças armadas do soviete assumem o controle das pontes da cidade sem que os guardas de Kerenski esbocem a menor resistência.
25 outubro
A ofensiva dos bolcheviques é ampliada durante a madrugada. Quando amanhece, não apenas as pontes, mas todos os locais estratégicos da cidade estão ocupados. Às dez horas, é anunciada a deposição do Governo Provisório. Resta apenas ocupar o Palácio de Inverno, sede do governo. Mais tarde, no mesmo dia 25, tem início o Segundo Congresso dos Sovietes, com 672 delegados – dos quais 390 (ou 58%) são favoráveis aos partidários de Lenin. Enquanto as discussões acontecem, os primeiros tiros de canhão contra o palácio já começam a ser ouvidos. Mencheviques, socialistas revolucionários de direita e outros grupos minoritários retiram-se do congresso. Ficam apenas os bolcheviques, os socialistas revolucionários de esquerda e os anarquistas.
26 de outubro
Às duas horas da manhã, cai o Palácio de Inverno. O último símbolo do poder burguês na Rússia é ocupado. Apenas três horas mais tarde, os bolcheviques sugerem formalmente que os sovietes tomem o poder. Lenin quer retirar a Rússia imediatamente da Primeira Guerra Mundial. Anuncia terra para os camponeses (sem pagamento de indenizações para os antigos proprietários), um estatuto democrático para as Forças Armadas, controle operário sobre a produção industrial e uma Assembléia Constituinte. O novo governo é composto exclusivamente por bolcheviques. A partir de agora, Lenin será o presidente. Trotski receberá o cargo de Comissário do Povo para as Relações Exteriores. E Stálin será o Comissário do Povo para as Nacionalidades.
Fonte: Revista Aventuras na História

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Vidas em celas
Movidas pela devoção a Deus ou levadas à força, mulheres pernambucanas do século XVIII iam morar em casas de recolhimento
Suely Creusa Cordeiro de Almeida

Uma beata, uma prostituta e duas escravas: o que estas mulheres aparentemente tão diferentes têm em comum? Elas viveram enclausuradas, durante parte de suas vidas, em recolhimentos no estado de Pernambuco no século XVIII. Essas casas tinham uma rotina bem parecida com a dos conventos e serviram para a educação feminina, para o aprisionamento e experiências de fé. 

O dia em um recolhimento começava às 5 horas da manhã, e grande parte dele era dedicado a orações e meditações. As atividades tinham horários rigorosos a serem cumpridos. Das 6h às 9h era o período dedicado à missa e aos sacramentos; às 14h eram rezadas as Vésperas (reza de agradecimento ao dia) e às 18h, a Ave-Maria. As instituições ensinavam não só a ler e a escrever, mas também caligrafia, regras de pontuação e ortografia, matemática, música e costura. Na hora de dormir, às 22h, a responsável pelo recolhimento acompanhava cada interna até sua cela. 

Destino comum de moças que não se casavam, o isolamento nessas instituições podia ter diversos motivos. A devota Lourença do Rosário, por exemplo, com sua profunda religiosidade, não decidiu simplesmente ir viver em um recolhimento: resolveu fundar um. Pôde construir o prédio que abrigou a instituição em terrenos doados que ganhou. Ficava no Beco do Paraíso, dentro do bairro popular de Afogados, no Recife. Mas sua trajetória não foi fácil. Muito pobre, a beata garantia com esmolas o seu sustento e o de outras mulheres que a acompanhavam. A casa, que recebia órfãs e donzelas, não tinha uma renda fixa, e precisava contar com donativos para se manter. 

A fé e a simplicidade de Lourença não podiam ser mais evidentes. Descalça, ela andava sempre com uma imagem do Menino Jesus nos braços, vestida com um hábito pobre e uma touca na cabeça. 

Além de abrigar mulheres, a instituição prestava vários serviços: oferecia educação não só para as internas, mas também para meninas pobres, inclusive expostas (deixadas para adoção), prestava socorro aos doentes, acompanhava famílias de luto e até puxava o ofício dos mortos quando não havia sacerdote. 

Os recolhimentos tinham a religião como elemento central, mas eram organizações leigas, não subordinadas a qualquer ordem religiosa. Uma das principais diferenças em relação a conventos era que as recolhidas não precisavam fazer votos de pobreza, obediência e castidade, e podiam sair a qualquer momento para se casar ou voltar para a casa de parentes.

Se a vida da beata Lourença do Rosário foi exclusivamente dedicada à religião, não se pode dizer o mesmo da prostituta Joana de Jesus, uma “desregrada”, segundo a palavra usada na época. Parda, pobre e sem instrução, morou no Recife e na Vila de Goiana. Mas o contato com o jesuíta e missionário italiano Gabriel Malagrida (1689-1761) provocou uma mudança definitiva em sua trajetória. Arrependida de seus pecados depois de ouvir os sermões do padre, ela abandonou a profissão. Foi nesse momento que decidiu que a melhor maneira de deixar para trás a prostituição era se isolar no Recolhimento das Convertidas de Igarassu, próximo ao Recife.  

No recolhimento, habitava uma casinha de taipa e trabalhava como serva onde podia cozinhar, lavar e limpar a casa. Recolhia-se logo após cumprir suas tarefas e frequentemente fazia jejuns, comendo apenas uma vez por dia alimentos leves e em pequena quantidade. Dormia sobre a terra, tendo como cabeceira um madeiro em que se recostava. Certamente em busca de purificação, a ex-prostituta praticava a  autopenitência: apertava o corpo com cilícios (corrente de metal com pontas, usada como instrumento de penitência) e açoitava-se. 
Quando meditava, chegava a entrar em transe. Os preceitos católicos eram seguidos à risca também no convívio social: era caridosa, trabalhadora, humilde e obediente, segundo depoimentos dos moradores de Vila de Igarassu a respeito dela, escritos por D. Domingos Loreto Couto. 

A doença e a proximidade da morte só fizeram acentuar a fé de Joana. Um dia antes do falecimento, em 11 de janeiro de 1754, um sábado, levantou-se da cama e passou todo o dia cantando louvores a Deus e a Maria Santíssima. Parecia que adivinhara seu destino. Seu rosto adquiriu tal esplendor que impressionou as outras recolhidas. Ao responder sobre o motivo de tanta alegria, disse que Deus lhe havia concedido descanso. No domingo, recebeu a unção dos enfermos e continuou seu louvor até as três horas da tarde, quando morreu. “Seu corpo ficou flexível, e seu rosto corado e com tanta formosura, que nela desapareceram todos os sinais da morte e os estragos causados pelos rigores da penitência”, relatou D. Domingos Loreto, no século XVIII, no livro Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco. A descrição apresentava características comuns aos grandes místicos, o que atraiu grande curiosidade em seu funeral.  

Joana de Jesus buscou e, ao que parece, conseguiu salvação com a vida que escolheu levar dentro do recolhimento. Este foi o caso também de duas escravas – mãe e filha, uma negra e outra mulata. O nome das cativas é desconhecido, mas sabe-se que elas pertenciam a Antônio de Araújo, com quem viviam em concubinato. Mas elas passaram a entender este relacionamento como pecado e resolveram não mais ceder às investidas do senhor.

O arrependimento e o desejo de servir a Deus, no entanto, não foram as únicas razões da opção pelo isolamento. O senhor as maltratava, um fato conhecido pela vizinhança do Recife.  Certa vez, quando a mais nova se negou a dormir com Antônio, ele chegou a prendê-la no tronco pelo pescoço para castigá-la.  

Esta e outras histórias de violências cometidas por Antônio de Araújo correram de boca em boca até chegarem aos ouvidos do bispo de Pernambuco, D. Frei Luís de Santa Tereza, em 1753. O prelado procurou livrar as escravas daquela situação por meio dos tribunais portugueses, primeiramente o Conselho Ultramarino e, em seguida, a Mesa da Consciência e Ordem. O bispo pedia que as escravas fossem vendidas a preço justo, pois havia uma lei de 1688 que dizia que se fosse provado em tribunal que o senhor era cruel, ele teria a obrigação de vender os escravos maltratados.

Outra lei do mesmo ano dava a qualquer um, inclusive aos escravos, o direito de denunciar seus senhores por maus-tratos. A demora de um veredicto, somada ao aumento dos castigos, fez com que as escravas fugissem, procurando abrigo junto ao bispo. Este mandou que elas procurassem o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, em Olinda. 

Nem sempre as mulheres escolhiam ir para essas instituições. Branca e rica, Brite Manuela foi obrigada a se enclausurar. Ela era filha de João Paes Barreto, grande negociante da Companhia Geral de Pernambuco e dono de quatro engenhos no Cabo de Santo Agostinho. Acusada de manter uma “casa de alcouce” (um prostíbulo) com suas escravas e de se prostituir publicamente, foi mandada para o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, em Olinda.

Desde cedo sua vida foi conturbada. Brites Manuela se casou grávida, depois de mover um complicado processo que correu nos tribunais portugueses. Seu marido era João do Rego Barros, homem poderoso que foi fidalgo e Provedor da Casa Real, que administrava e controlava os gastos e as rendas reais. Ele foi obrigado pela Justiça portuguesa a casar para “reparar o erro”, mas os dois nunca chegaram a viver juntos.

Até aí, pelo menos as aparências estavam salvas.  Mas quando o marido e os pais de Brites Manuela morreram, ela se mudou do Cabo de Santo Agostinho e foi para o Recife, onde teria se prostituído. Naquela época, uma mulher pertencente à elite pernambucana não podia viver como bem entendesse. Suas ações constituiriam uma mácula na honra e no prestígio de sua família. 

Quando se transferiu para a vila de mala e cuia, Brites levou um adicional de escravas vindas das propriedades do irmão, Estevão Paes Barreto. Foi ele quem denunciou à Coroa portuguesa a fuga da irmã e suas supostas ações imorais. Em carta à rainha D. Maria, Estevão afirmava que Brites Manuela, além de proceder de modo indecente, havia lhe roubado escravos.  Por fim, questionava a divisão dos bens feita após a morte dos pais.  

Por tudo isso, ela deveria ser impedida de agir como uma mulher desclassificada. Em síntese, a situação se resolveria entregando Brites Manuela a uma casa de clausura perpetuamente (com despesas pagas pela família). E assim foi feito. Ela ainda teve todos os bens confiscados. 

As histórias dessas mulheres são uma pequena parte de tudo que só as paredes das casas de recolhimento testemunharam. Vidas que, para algumas, foi de dedicação e fé, mas também provas de que não foram passivas em suas trajetórias.

Fonte: RHBN
Mascates em guerra
Há 300 anos, a capitania de Pernambuco se dividiu em uma briga política que resultou na emancipação do Recife
George F. Cabral de Souza

Para conseguir participação política no início do século XVIII, os comerciantes do Recife precisaram enfrentar um conflito civil. Até então, todos os mercadores do Brasil colonial eram excluídos das Câmaras Municipais, o centro do poder local. A disputa foi acirrada, mas os mascates conseguiram o que queriam. O feito era inédito, e três séculos depois esta vitória parece estar mais do que estabelecida. Nas eleições municipais de 2008, quem diria, o vereador mais votado de Olinda foi um vendedor ambulante: Mizael Prestamista conseguiu o voto de 5.300 eleitores. De fato, muita coisa mudou.

Durante quase 200 anos, a aristocracia açucareira pernambucana dominou a Câmara Municipal de Olinda, principal vila da capitania de Pernambuco. Isto acontecia com respaldo da legislação portuguesa. A contenda começou com a expulsão dos holandeses de Pernambuco. Durante a ocupação (1630-1654), Recife passara de simples ancoradouro de Olinda a um grande centro urbano, ganhando importância. Com a saída dos invasores,  formou-se uma nova comunidade de mercadores. Vinham quase todos do norte de Portugal, para trabalhar como caixeiros ou se dedicavam ao pequeno comércio, e por isso eram chamados de mascates. Muitos deles enriqueceram, chegando a comprar engenhos e escravos.

Com a conquista do poder econômico, não é de espantar que começassem a querer também o poder político. O acesso à Câmara dos Vereadores significava a participação nas principais decisões locais. A instituição tinha múltiplos poderes, como definir valores de mercadorias e tributos, e funcionava ainda como tribunal de primeira instância.  

O problema é que ela era controlada pela “nobreza da terra”, ou seja, os senhores de engenho que haviam se empenhado diretamente na luta contra os holandeses. Esse domínio se manteve durante muito tempo, sendo passado para seus descendentes. Quando os comerciantes começaram a cobiçar estes cargos, o clima azedou. Muitos dos senhores de engenho estavam endividados até as orelhas com os mascates. Ceder o mando político local aos seus credores lhes parecia um pesadelo. 

Para repelir os comerciantes, os nobres recorreram às antigas e exigentes normas que definiam quem podia se candidatar aos cargos municipais. As eleições para vereador naquela época eram feitas de forma indireta. Votava-se em um colégio eleitoral e este grupo indicava os nomes para os cargos cujos mandatos eram anuais. Tanto eleitores como eleitos tinham que ser “homens-bons”, isto é, só podiam participar proprietários de terras e de escravos, que fossem bem-nascidos. Isso excluía os mestiços, descendentes de judeus e cristãos-novos (gente recentemente convertida ao cristianismo), e os que exerciam trabalhos manuais. Neste grupo estavam os sapateiros, pedreiros, carpinteiros ou pequenos comerciantes, com suas lidas de pesar, carregar e expor as mercadorias. 

Quase todos os comerciantes portugueses no Recife tinham desempenhado trabalhos manuais ou eram filhos e netos de trabalhadores braçais. Além disso, a nobreza da terra alegava que, por só quererem o lucro, os mascates não eram adequados para gerir os assuntos públicos. 

Os comerciantes continuaram pressionando por seus interesses, com um poder de barganha que não era pequeno. Entre os serviços que prestavam à Coroa portuguesa estava o empréstimo de recursos para aos cofres da monarquia. Em 1703, uma lei autorizou os grandes comerciantes a serem vereadores. Os mascates, isolados até então em cargos secundários, conseguiram se eleger para alguns dos cargos principais. Mas os nobres se recusavam a tomar posse, paralisando o trabalho da Câmara. Em 1706, a discussão entre dois vereadores sobre uma nomeação acabou em briga. Um nobre e um comerciante trocaram socos e pontapés na sala de reuniões da Câmara de Olinda. 
Após muita reclamação de ambos os lados, em 1709 o rei D. João V (1706-1750) elevou o Recife a vila, com uma Câmara própria. Com autonomia, a localidade não teria mais que disputar com Olinda o poder político. 

A notícia chegou ao Recife em 5 de fevereiro de 1710, em meio a um ambiente bastante tenso. Nos meses que haviam decorrido, as desavenças entre mascates e nobres tinham se agravado. Em grande parte, isso acontecera por conta da atuação desastrada do governador da capitania na época, Sebastião de Castro e Caldas. Ele era abertamente partidário dos comerciantes, concedendo-lhes benesses, prejudicando a nobreza da terra e praticamente transferindo a sede da governança para o Recife, o que tinha grande valor simbólico. 

Temendo represálias, Castro e Caldas não divulgou de imediato a emancipação política do Recife; esperou dez dias. As pedras para a construção do novo pelourinho – coluna instalada em local público, símbolo da autonomia da municipalidade e local para castigo de escravos – foram preparadas em segredo. Mas o adiamento não resolveu a situação. O descontentamento da nobreza da terra levou o grupo a iniciar imediatamente sua reação: um atentado contra o governador e a derrubada da Câmara do Recife. Na noite de 17 de outubro, quando voltava de uma missa, Castro e Caldas foi alvejado por vários tiros. Ferido, o governador tentou em vão reprimir a sedição. Os contingentes reunidos por senhores de engenho conseguiram avançar para o Recife.

No dia 6 de novembro, cerca de três mil homens acamparam nas imediações de um Recife tomado pelo pânico. Testemunhos da época relatam que desde a invasão holandesa não se presenciava tanto desespero. Acuado, o governador fugiu para a Bahia. Com ele foram os mascates mais envolvidos nas manobras que levaram à criação da nova Câmara e os maiores credores dos senhores de engenho. 

As autoridades que permaneceram na capitania conseguiram manter os ânimos sob controle. As milícias foram autorizadas a marchar pela vila. As fileiras mais numerosas entraram no dia 9, acompanhadas por religiosos encarregados de manter a ordem e coibir abusos. Nesse mesmo dia, 12 índios foram enviados ao pelourinho com a missão de destruí-lo. Após derrubar a coluna, arrastaram pelas ruas a placa de bronze que materializava a autoridade municipal do Recife. Outras duas marchas menores foram feitas nos dois dias seguintes, e ao longo do trajeto os milicianos bradaram ofensas contra o Recife.

Por ordem régia de 1707, competia ao bispo D. Manuel Álvares da Costa assumir o governo. No entanto, ele estava na Paraíba em visita pastoral, e teve que sair de lá às pressas. Com a confusa situação, os líderes locais acharam melhor chegar a um consenso sobre quem deveria governar. Um grupo mais radical queria a proclamação de uma república controlada pela nobreza, nos moldes de Veneza (proposta pioneira no continente americano). Já os moderados defendiam a entrega do governo ao bispo. Depois de muito debate, a posição desses últimos prevaleceu.

D. Manuel Álvares da Costa governou Pernambuco durante 11 meses, controlado de perto pelos nobres. A nova Câmara foi fechada, seus papéis foram destruídos e seus oficiais, humilhados em praça pública. Em Lisboa, a notícia chegou no final de fevereiro de 1711, e o Conselho Ultramarino começou a preparar a punição ao levante. Um novo governador, Félix José Machado, foi nomeado e instruído a identificar e prender os cabeças da sedição dos nobres. 

Enquanto isso, os mascates se articulavam para reagir. Tinham que garantir que o novo governador pudesse assumir. Em 18 de junho de 1711, tomaram as fortalezas do porto. A nobreza sitiou a vila com 1.500 homens e canhões retirados dos fortes litorâneos. Os mascates dispararam cerca de cinco mil projéteis contra os sitiantes, mas não conseguiram romper o cerco. As baixas somadas não chegaram a uma dezena, mas na vila houve escassez de comida e água potável. A população teve que comer mariscos com açúcar.

Em Pernambuco e nas capitanias vizinhas, a população se dividia entre apoiar Olinda ou Recife. Alguns senhores de engenho do sul de Pernambuco aderiram ao Recife, o que permitiu que a vila fosse abastecida pelo mar com provisões embarcadas em portos secundários. O impasse durou até o outubro de 1711, quando o novo governador chegou. Após delicadas negociações, os combatentes foram desmobilizados. Só então Félix Machado pode desembarcar e ser empossado. No início, agiu de forma aparentemente imparcial, mas quando a poeira baixou, pôs em prática um elaborado plano de repressão aos nobres da terra.  

A Câmara do Recife voltou a funcionar em meados de novembro de 1711. Ao longo das décadas seguintes, surgiram vários pontos de atrito entre as duas municipalidades. Questões de jurisdição sobre a administração dos tributos alimentaram um conflito político crônico. De qualquer forma, o resultado da Guerra dos Mascates foi a entrada de um novo grupo social na esfera política. No século XXI, quando o vereador mais votado nas eleições locais foi um comerciante que diz ter orgulho do que faz, fica evidente o legado do conflito. 

Fonte: RHBN
Degola no Sul
Uma ameaça à jovem República, a Revolta Federalista foi violentamente rechaçada. O resultado foi a morte de dez mil homens
Rafael Sêga

Muito sangue foi derramado para que a República pudesse se sustentar nos anos que se seguiram à sua Proclamação. No Rio Grande do Sul houve até degolas. O fato é que havia muitos interesses em jogo durante os governos militares de Deodoro da Fonseca (1827-1892) e Floriano Peixoto (1839-1895). Os dois presidentes precisaram conciliar os negócios da economia cafeeira com a manutenção da unidade nacional. Mas não o fizeram sem resistência. 

Um dos movimentos que mais contestaram a soberania dos republicanos foi a Revolução Federalista, uma série de conflitos armados que ocorreram nos três estados do Sul do Brasil entre 1893 e 1895. O fundador do Partido Federalista do Rio Grande do Sul, Gaspar Silveira Martins (1834-1901), defendia uma reforma da Constituição e a adoção do parlamentarismo. Seus correligionários foram enfrentados por Julio de Castilhos (1860-1903), que governava o Rio Grande do Sul. 

A luta aberta irrompeu quando o ex-fazendeiro Gumercindo Saraiva (1852-1894), que tinha se refugiado no Uruguai, cruzou a fronteira com cerca de quatrocentos federalistas, chamados também de “maragatos” – termo que remete a uma região da Espanha, La Maragataria, povoada por berberes da região egípcia do Maragath, e aos oriundos do departamento uruguaio de San José. Os maragatos no Uruguai eram majoritariamente blancos, representantes de uma classe de pequenos produtores rurais. No Brasil, eles se alinhavam aos partidários de Gaspar Silveira Martins, contra os projetos centralizadores locais, liderados por Julio de Castilhos, e nacionais, liderados por Floriano.

Para organizar suas tropas, os maragatos tiveram que usar fitas vermelhas (as “divisas”) nos chapéus para que sua ascendência militar ficasse à mostra. Já as tropas federais governistas passaram a ser conhecidas como “pica-paus”, por conta do uniforme azul e do barrete vermelho. Após algumas escaramuças iniciais, o primeiro grande confronto entre as duas facções ocorreu na Campanha Ocidental, no início de maio de 1893, em Alegrete, nas proximidades do arroio Inhanduí. Para muitos, essa foi uma das maiores batalhas da história do Rio Grande do Sul.

Os bem armados republicanos, apesar da inferioridade numérica, conseguiram repelir os federalistas do campo de batalha com canhões e metralhadoras. A retirada das tropas revolucionárias, liderada pelo coronel Joça Tavares (1818-1906), foi um desastre: os governistas conseguiram alcançá-las, provocando grandes perdas entre os insurretos e obrigando-os a voltar ao Uruguai para reorganizar suas forças. A certeza da vitória final era tanta que os chefes legalistas haviam enviado um telegrama a Julio de Castilhos no qual afirmavam sumariamente: “Revolução estrangulada”.

No final de julho, Gumercindo uniu suas tropas às do general Salgado, num total de quase dois mil homens, e prosseguiu tomando pequenas cidades da Campanha até a primeira vitória, em Cerro do Ouro, no final de agosto. Pouco tempo depois, os federalistas receberam notícias que lhes deram um novo ânimo: na capital da República, a Armada, sob a liderança do almirante Custódio de Melo (1840-1902), havia se rebelado contra a ditadura de Floriano. O presidente, para defender sua permanência no poder, acabou agindo de forma centralizadora,contrariando certas elites regionais.

 Custódio achava que poderia intimidar Floriano com bombardeios na capital, como havia feito dois anos antes com Deodoro, mas não foi o que aconteceu. A esquadra rebelde sofria por causa de uma epidemia de beribéri, e começou a perder o ânimo para enfrentar os canhões das fortalezas fiéis ao governo. Custódio então resolveu, no início de dezembro, romper o cerco do canal da barra com o encouraçado Aquidabã. O objetivo era ligar sua tropa ao cruzador República na ilha de Santa Catarina, onde o capitão de mar e guerra Frederico Guilherme de Lorena havia proclamado um “Governo Nacional Provisório” desde outubro.

Mas o lado governista, a Divisão do Norte – comandada pelo senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915) –, diminuiu o entusiasmo dos federalistas, forçando-os a avançar para o norte do estado, onde se encontrariam com os revoltosos que estavam estacionados na ilha de Santa Catarina. Num primeiro momento, o deslocamento da revolta da Armada para o Sul e a sua ligação com a Revolução Federalista foram bem-sucedidos. Mas a união dos dois movimentos não se manteve: os pretensos aliados pouco tinham em comum.

Em outra frente de combate, no final de 1893, uma força governista foi dominada por Joca Tavares às margens do Rio Negro, nas proximidades de Bagé, onde ocorreu uma das maiores atrocidades de todo o período. Na noite de 24 de novembro, cerca de trezentos dos mil prisioneiros foram executados por degola. Mas essa chacina não passaria incólume. Alguns meses depois, um general castilhista, Firmino de Paula, se vingou exterminando um número quase igual de maragatos em Boi Preto. 

Logo em seguida, Tavares apostou todas as suas fichas na tomada de Bagé, que era sede de uma bem armada guarnição militar e dispunha de uma linha férrea que a ligava à cidade de Rio Grande. Mais ao norte, a coluna de Gumercindo conseguiu chegar a Blumenau, e dalí seguiu até a cidade litorânea de Itajaí, onde pretendia se juntar aos revoltosos da Armada. O comandante prosseguiu sua marcha com um plano audacioso: tomar as praças de guerra Tijucas e Lapa, no sudeste do estado do Paraná, enquanto Custódio de Melo se encarregava de tomar o porto de Paranaguá. As localidades foram conquistadas em poucas semanas.

Da Lapa, os maragatos pegaram um trem para cuidar dos feridos em Curitiba. Diante dessa ofensiva, o governador do estado transferiu a capital para Castro, deixando Curitiba à mercê das forças federalistas, que exigiram “empréstimos de guerra” para não saquear a cidade. A missão de reunir o dinheiro ficou a cargo de Ildefonso Pereira Corrêa (1849-94), o barão do Cerro Azul – esse gesto seria usado como justificativa para a sua execução, meses mais tarde, na estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, possivelmente por governistas.
 
Quando a vitória dos federalistas parecia inevitável, o presidente Floriano conseguiu organizar a contraofensiva, e obteve importantes vitórias sobre os revoltosos da Armada, pondo a pique o principal navio de guerra dos marujos rebelados, o Aquidabã, o que acelerou o fim do Governo Provisório. Isso abalou a confiança dos maragatos e os fez desistir de invadir São Paulo, onde o governo federal, com a colaboração do governador Bernardino de Campos (1841-1915), havia organizado um exército de quase seis mil homens em Itararé. Só restou aos insurretos recuar em suas posições no Paraná, marchando três colunas para oeste, pelo interior.

Os republicanos enviaram a Divisão do Norte para enfrentá-los em Passo Fundo, onde a coluna de Gumercindo lutou sua última e mais renhida batalha. Os maragatos provocaram grandes baixas nas forças legalistas, mas as cargas de lanceiros eram insuficientes diante de uma infantaria armada com fuzis Comblains e canhões Krupp.

Em agosto de 1894, Gumercindo estava passando em revista seu combalido exército quando foi alvejado por um franco-atirador oculto numa mata, vindo a falecer dois dias mais tarde. Após sua morte, a Revolução Federalista se tornou um protesto errante, e os maragatos resolveram se refugiar na Argentina. A eleição de Prudente de Morais, em março do mesmo ano, colocou na Presidência um civil, o que foi de encontro aos anseios dos grupos radicais jacobinos, que lutavam por um governo militar e ditatorial.

A Revolução Federalista sofreu sua derrota final em junho de 1895, durante o combate de Campo Osório, no qual o almirante Luís Felipe Saldanha da Gama (1846-1895) e seus quatrocentos homens resistiram até o fim. A maioria – marujos montados a cavalo – morreu em combate, e os que sobreviveram fugiram para o Uruguai. O acordo de paz, ou seja, o armistício de Piratini, foi assinado perto de Pelotas, no dia 23 de agosto de 1895, entre o general Inocêncio Galvão de Queiroz, emissário do governo federal, e Joca Tavares, representante dos federalistas – cuja reivindicação principal se reduziu à revisão da Constituição estadual. A guerra civil terminou com uma debandada de dez mil federalistas para o Uruguai e dez mil mortos dos dois lados.

O fim da Revolução Federalista confirmou, no Rio Grande do Sul, o predomínio do Partido Republicano Rio-Grandense sobre a vida institucional. Julio de Castilhos governou até 1898, e a Carta Magna estadual foi o sustentáculo jurídico da perpetuação de um mesmo presidente do estado por quase três décadas: Antonio Borges de Medeiros (1863-1961).

Fonte: RHBN

domingo, 20 de fevereiro de 2011


Para os alunos da 5ª série B (6º ano) turma em que lecionam os Professores Gedson Lopes e Estevo no CCMI, meus amigos

As idades da história

Dez degraus que nos levam às profundezas do passado

por Cláudia de Castro Lima
A divisão da história em períodos é um tema controverso. Muitos estudiosos não concordam que seus marcos sejam acontecimentos políticos, e importância destes como divisores temporais é sempre contestada. Mesmo assim, as idades da história e da pré-história ainda são os degraus mais usados rumo aos tempos imemoriais.
1 milhão a.C. - Pedra lascada
O período conhecido como Paleolítico começa com o aparecimento do homem moderno (homo erectus). Para sobreviver às hostilidades do ambiente, ele aprendeu a usar madeira, ossos e pedra fazendo utensílios como lanças e arpões. Com eles, rasgavam a carne dos animais e conseguiam frutos de árvores e raízes. Nômade, o homem também descobriu como fazer e controlar o fogo.
10 mil a.C. - Pedra polida
Com habilidade na fabricação de armas e ferramentas mais desenvolvidas, como arcos-e-flechas e anzóis, os povos fixam residência perto de lagos e rios. Aprendem a domesticar galinhas e ovelhas, plantam alimentos como trigo, descobrem a tecelagem e constituem família. A produção de objetos de cerâmica também é datada dessa época, a última dos tempos pré-históricos. Nascia assim a base para o nascimento da civilização.
3500 a.C. - Bronze
A pré-história termina com o surgimento da escrita pelos sumérios e com a criação das cidades. O primeiro período da Antigüidade Clássica é caracterizado por novas formas de organização social e também pela descoberta da metalurgia: cobre, bronze e ouro eram usados para a confecção de utensílios. O poder do indivíduo passa a ser medido pela quantidade de objetos metálicos que possui.
1000 a.C. - Ferro
O homem consegue produzir temperaturas de combustão altas o suficiente para a fusão do ferro, que se torna o principal material para armas e utensílios de casa. Esse período abriga o florescimento de grandes civilizações, como os gregos e romanos, que ditarão a conduta humana nos períodos seguintes.
476 - Alta idade média
A queda de Roma assinala o fim das grandes cidades e o início da ruralização da Europa, num período conhecido como Idade das Trevas. Os bárbaros espalham-se até a Península Ibérica e a Grã-Bretanha, mas, entre eles, cresce o cristianismo, com a aliança dos reinos com a Igreja. Fora da Europa, o islamismo surge e alastra-se, e os árabes experimentam um intenso desenvolvimento cultural.
Século 10 - Baixa idade média
As campanhas militares sancionadas pela Igreja contra os muçulmanos – conhecidas como Cruzadas – marcam esse período, que abriga também o nascimento de pequenas cidades cercadas por fortalezas, os burgos. Nessas vilas, drasticamente afetadas pela peste, nasce um sistema social diferente da relação entre servos e senhores feudais.
1453 - Moderna
A nova classe dominante, os burgueses, volta-se ao conhecimento clássico (das civilizações da Idade do Ferro), movimento conhecido como Renascimento. A queda de Constantinopla, capital do Império Bizantino, inaugura o período que abriga a Reforma Protestante, o racionalismo e a descoberta da América, três pilares dos tempos futuros.
1789 - Contemporânea
A Revolução Francesa assinala o fim definitivo do regime monárquico. Sob o rótulo do ideal da igualdade, liberdade e fraternidade, triunfa o sistema de divisão do trabalho assalariado. A tecnologia dá um salto gigantesco, que prolonga a expectativa de vida do homem e o torna capaz de viajar até mesmo para fora do planeta. O que será que marcará o fim desse período?
Fonte:Revista aventuras na História

domingo, 30 de janeiro de 2011

Caçada aos ‘bosnegers’
Os holandeses expulsaram os portugueses de Pernambuco, mas não conseguiram conter a fuga de escravos
Rômulo Xavier
Os documentos holandeses da época da invasão do nordeste brasileiro trazem impressos dois substantivos familiares ao nosso idioma: capitao-do-mato e feitor. A ausência de palavras equivalentes na língua neerlandesa para descrever tais funções mostra como a organização da sociedade escravista colonial podia ser estranha aos olhos dos novos conquistadores. A capitania de Pernambuco cobria parte dos atuais estados de Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Ali, depois de expulsar as tropas portuguesas, os holandeses se deparariam com a resistência de escravos que fugiam para as matas e formavam quilombos que desafiavam, com suas táticas de guerrilha, as habilidades militares desses temidos conquistadores.
A guerra, que marcou os primeiros anos (1630-1637) da ocupação holandesa, provocou desordens no cotidiano dos engenhos de açúcar espalhados pela capitania. Moendas destruídas, tachos de cobre jogados aos rios e evasão de boa parte dos moradores daquelas propriedades facilitariam a fuga de muitos escravos. Um relatório oficial, enviado em 5 de janeiro de 1634 aos Países Baixos, narrava um dos episódios dessa guerra: o incêndio proposital de um “navio de bom tamanho, vindo de Angola com 300 negros para Barra Grande, onde haviam sido desembarcados os negros”. Esses escravos, que chegavam num momento em que os holandeses tentavam se fixar em Pernambuco, deveriam ser distribuídos para as lavouras de cana-de-açúcar que ainda não haviam caído nas mãos da Companhia das Índias Ocidentais (WIC).  À medida que as tropas da WIC conquistavam o interior da capitania de Pernambuco, vários engenhos foram confiscados. Daqueles trezentos cativos que desembarcaram no sul de Recife, certamente alguns tomariam o rumo das matas fechadas.
Os fugitivos assaltavam propriedades e moradores do interior. Os documentos holandeses os chamam bosnegers (negros da mata) e não é improvável que muitos deles tenham escapado para o quilombo de Palmares. Uma vez ganhando as matas, os bosnegers não tardariam a ocupar as várzeas através de ataques-surpresa aos engenhos e casas de moradores do interior. Em Pernambuco, desde fins do século XVI, as fugas de escravos já causavam dores de cabeça ao poder local. Com a conquista holandesa, em 1630, esse problema apenas mudava de mãos.
As tropas da Companhia das Índias Ocidentais enfrentaram a guerra de emboscadas, estratégia dos escravos quilombolas, que usavam armadilhas, pequenos efetivos e operações pontuais. Era uma tática bem diferente do modelo de combate frontal entre grandes exércitos, comum na Europa. Os soldados holandeses deveriam conhecer bem a geografia local, para tanto contaram com a ajuda de índios tupi (brasilianen) e tapuias, recrutados no Rio Grande do Norte e Ceará. Os índios conheciam os caminhos, as matas, os rios e podiam rastrear fugitivos. Após cinco anos de guerra contra os luso-brasileiros sitiados no Arraial Velho do Bom Jesus, os holandeses já podiam empregar a tática da guerrilha na busca de quilombolas.
Muitos escravos passaram para o lado holandês e serviram à WIC em diversos trabalhos. É possível que alguns deles tenham se tornado livres após três anos de serviços militar para a WIC. Um ex-escravo, Manuel Fernandes, chegou a tornar-se, em 1635, soldado remunerado da companhia. Outros, ao contrário, permaneceram com os seus antigos senhores e ingressaram como soldados na resistência aos holandeses. Acreditavam que assim seriam soldados de sua própria liberdade.
Os soldados holandeses enfrentaram situações muito difíceis.  No inferno da guerrilha, segundo o cronista Diogo Lopes Santiago, “andavam muitos flamengos perdidos pelos matos, onde cada dia os matavam os negros que os encontravam”. O curioso é que vários soldados desertores da WIC formariam, também nas matas, bandos de salteadores.
Mesmo após o inicio da guerra holandesa, muitos escravos continuaram entrando em Pernambuco através de portos ainda não ocupados pelos batavos. É provável que, a partir de 1635, tenha havido uma diminuição brusca na importação de escravos para Pernambuco, pois todos os portos da capitania passaram para as mãos dos holandeses. Até 1637, uma das principais formas de inserção dos batavos no comércio de escravos era através do ataque a embarcações portuguesas que cruzavam o Atlântico abarrotadas de negros. Dessa maneira, muitos negros que eram vendidos em Nova Amsterdam na segunda década do século XVII pela WIC tinham originalmente nomes portugueses.
A maior comunidade quilombola representada pelos Palmares teria se formado em fins do século XVI e inicio do XVII. Ela surgiu, como observou o historiador Flávio Gomes, “com o mundo do açúcar do Brasil e posterior aumento do fluxo do tráfico negreiro”.  Entre os anos de 1570 e 1590, o número de engenhos pernambucanos havia praticamente dobrado, passando de 23 para aproximadamente 70. Para atender ao crescimento vertiginoso da produção, que respondia por mais da metade do açúcar consumido na Europa, foi necessário aumentar a mão-de-obra, que misturava escravos vindos da África centro-ocidental e nativos. 
Quando os holandeses invadiram a região, em 1630, já existia mais de uma centena de engenhos, com alguns milhares de escravos. O aumento da produção levaria os portugueses a incrementar o comércio de escravos. A invasão holandesa interrompeu o abastecimento de mão-de-obra para os engenhos pernambucanos, que antes de 1630 recebiam aproximadamente 4.000 escravos por ano. 

Maus tratos e fome faziam parte do cotidiano dos cativos das grandes lavouras açucareiras. Para remediar essa situação, foi permitido que os escravos plantassem suas próprias roças, nas quais se privilegiava o cultivo da mandioca. Essa prática atravessaria boa parte do período colonial. A farinha de mandioca seria o pivô numa luta entre moradores locais, tropas da Companhia das Índias Ocidentais e os escravos salteadores. Tudo isso pela escassez alimentar que iria marcar praticamente todo o período de permanência batava no Brasil.
O Brasil era uma realidade nova que desafiava a racionalidade administrativa da WIC. Se na América do Norte, a companhia obtinha, sem muito esforço, lucros com o comércio de peles no rio Hudson (na região do atual estado de Nova Iorque), no Brasil a sua atividade não foi tão fácil. Aqui, os holandeses não podiam escapar aos meandros de uma sociedade essencialmente escravista, na qual capturar quilombolas era quase tão natural como fazer comércio.  Por serem onerosas, as capturas não era bem vindas aos princípios de uma companhia semi-privada.
Para os holandeses, era impossível vigiar as propriedades do interior, pois grande parte de seu efetivo estava quase sempre de prontidão para a defesa da costa. Qualquer notícia de um eventual ataque ibérico – vale lembrar que Portugal esteve sob o domínio espanhol, a chamada União Ibérica, de 1580 até 1640) –, causava uma espécie de paranóia que mobilizava todas as tropas para a costa. Com isso, os moradores do interior ficavam desprotegidos. À medida que crescia a área conquistada pelas tropas mercenárias da WIC, crescia a vulnerabilidade desse território.
Ainda pouco adaptados, os holandeses perceberam que não poderiam prescindir da experiência de meio século dos luso-brasileiros na região. Um deles, bem conhecido da historiografia colonial, foi João Fernandes Vieira que, em 1638, obteve da companhia o direito de capturar escravos fugidos e traze-los às autoridades holandesas “para lhes serem vendidos a 130 reais a peça, no estado em que se achassem, fossem moços ou velhos, homens ou mulheres”.  Essa cooperação entre batavos e luso-brasileiros seria uma marca da política holandesa em relação aos ‘inconvenientes’ da escravidão. As duas partes lucravam: A Companhia obtia os escravos de volta, enquanto Vieira se tornava um dos homens mais ricos de Pernambuco.
O ambicioso madeirense, porém, não daria conta de tudo: tentando acertar a ‘cabeça’ do monstro que lhes atormentava o sono, os holandeses armariam expedições aos Palmares. Uma delas se deu em 1638, quando o Capitão Lodij, ajudado por índios, tentou avançar mata adentro para surpreender os mocambos. O foco da ação seria o interior de Pernambuco em sua porção sul, mais ou menos à altura da Vila de Porto Calvo – parte da conquista mais vulnerável aos ataques dos bosnegers. 
 
Em 1641, viajando ao sul de Pernambuco para visitar as guarnições que se encontravam até o Rio São Francisco, o conselheiro político holandês Adrien van Bullestrate foi informado um morador na altura do rio São Miguel que o interior, além de desabitado, estava exposto aos ‘ataques de negros’ e outras moléstias.  Correspondendo ao norte do atual estado de Alagoas, era uma região rica em peixes, gados soltos e roças de mandioca. Alguns moradores dessa área pediam que as autoridades holandesas permitissem que índios aldeados [submetidos à autoridade colonial] morassem na região para que tivessem aliados no combate aos quilombolas. De acordo com o relatório de Bullestrate, “todos os moradores queixam-se de que diariamente alguns negros invadem suas roças e plantações e levam tudo quanto podem”.

As reclamações dos atacados pelos ‘negros da mata’ era um sintoma de que nem tudo ia bem no governo de Mauricio de Nassau (1637-1644). A situação de insegurança nos campos contrastava com o que se via na Cidade Maurícia, construída junto ao Recife e rodeada de fortificações. De um lado, tínhamos uma corte renascentista que recebeu intelectuais de diversas áreas. Do outro, uma situação de constante tormento.
É bem verdade que foi durante o governo de Nassau que a WIC conseguiu retomar a produção de açúcar, ocupar a cidade de Luanda, em Angola, empreendendo um vultoso comércio de escravos no Atlântico sul e aumentar ao máximo os territórios conquistados. Os ataques quilombolas, entretanto, não foram contidos: contra os bosnegers não havia manual de guerra que desse jeito.
Quando em 1645 a expedição do Capitão Jan Blaer atingiu alguns mocambos na região palmarina, os holandeses já estavam no Brasil há quinze anos. A chegada aos ‘domínios dos quilombolas’ deixou-os impressionados com as roças de mandioca e feijão, sem contar as armadilhas dispostas pelo caminho. Encontraram e destruíram o que julgavam ser o ‘Palmares Novo’. Mas outros palmares haveriam de surgir e desaparecer até sua destruição definitiva, em 1694.

Fonte: RHBN