| Vegetarianos à força |
| Enquanto a nobreza comia todos os tipos de carne, escravos se atiravam na Baía de Guanabara atrás de miúdos de boi. |
| Pedro Henrique Campos |
Frutas, verduras e grãos. À primeira vista, uma boa dieta, típica de quem quer manter-se “em forma”, como se diz. O termo que deveria estar entre aspas, contudo, é “quer”, pois ele faz toda a diferença. No Rio de Janeiro de D. João VI, escravos mantinham uma dieta muito próxima à dos vegetarianos – mas eram obrigados a isso, por não terem acesso a quase nenhuma proteína animal. Desde o tempo da colônia, muitos historiadores notaram que os hábitos alimentares simbolizavam com perfeição nossa desigualdade social. As pessoas mais ricas preferiam consumir alimentos estrangeiros, especialmente os portugueses, como vinho, pão de trigo, azeite, vinagre, azeitona e queijo. Já os escravos e homens livres pobres se viam obrigados a comer produtos nacionais, como mandioca, feijão, milho, peixe e frutas. Estava materializada na alimentação a distância que separava os proprietários de terra e grandes comerciantes dos demais grupos sociais. No início do século XIX, o Rio era o principal centro urbano do Brasil. Tinha o comércio mais movimentado e era o principal porto do mercado de escravos. Além da sujeira das ruas, das vias estreitas e barulhentas, era a quantidade de escravos o que mais saltava aos olhos de quem visitava a cidade. A vinda da corte portuguesa, em 1808, aumentou enormemente a demanda por cativos para servir à família real, aos funcionários da Coroa e aos cortesãos. Os escravos chegaram a cerca de 60 mil, quase a metade da população urbana. Com mais homens livres e escravos nas ruas, criaram-se dois grandes problemas para os governantes. Em primeiro lugar, temia-se uma “haitização” da capital, ou seja, uma grande rebelião nos moldes da que dominou a colônia francesa do Haiti em 1791, levando à proclamação da sua independência em 1804. O segundo medo era o do desabastecimento de bens. Principalmente os alimentos. O item mais escasso era também um dos mais elementares: a carne. O produto era transportado para a capital na forma de animais vivos – principalmente boiadas vindas das províncias de Minas Gerais e Rio Grande do Sul (os gaúchos tinham o maior rebanho bovino do país) – ou como carne-seca, em navios que costeavam o litoral, no chamado comércio de cabotagem. Com os bois vivos, preparava-se um tipo especial de carne, diferente da carne-seca, que era mais salgada e durava mais. Os bois eram abatidos em matadouro público (na Rua Santa Luzia, no bairro da Glória) e encaminhados aos diversos açougues da cidade. Ali, as pessoas compravam a carne e preparavam-na no mesmo dia, para que não apodrecesse. Era a chamada “carne verde”: mais cara e consumida pelos grupos privilegiados da sociedade: grandes comerciantes, fazendeiros e altos funcionários do governo. Além de escravos, a vinda de D. João VI ao Brasil atraiu também – principalmente a partir de 1815, com o fim das guerras napoleônicas – muitos cientistas, artistas e comerciantes europeus, que mantiveram cartas e diários de viagem. Estes registros revelam que a questão dos hábitos alimentares no Brasil causava grande estranhamento nos viajantes. Eles criticavam o comportamento dos colonos à mesa, a não utilização de talheres e a falta de respeito a etiquetas, inclusive entre os mais ricos. Relatavam, enojados, que era um costume muito comum comer com as mãos, usando apenas uma faca para auxiliar no corte de algum pedaço de carne. Os estrangeiros também notaram muitas diferenças entre a alimentação das pessoas ricas, dos pobres e dos escravos. Segundo relato do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), o horário das refeições variava conforme a condição social. Enquanto os empregados e escravos jantavam por volta das 14 horas, os proprietários e grandes comerciantes faziam a refeição apenas às 18 horas. A sesta após a janta era comum, mas também variava entre as classes: enquanto os ricos cochilavam de duas a três horas, os mais pobres – justamente aqueles que trabalhavam – dispunham de menos tempo para o descanso. Alguns viajantes puderam presenciar as refeições de vários grupos sociais, encontrando grande diferença no cardápio. Debret esteve na casa de um rico comerciante e participou de um banquete, que era ali um hábito usual. Ao descrever o evento, o pintor conta que na mesa havia um “enorme pedaço de carne de vaca, salsichas, tomates, toucinho”. Depois vinham “galinha com arroz” e “uma resplendente pirâmide de laranjas” – tudo acompanhado de frutas e taças com água e vinho Porto e Madeira, mantidas sempre cheias pelos escravos domésticos. Os mais abastados comiam não apenas muita carne, mas em grande variedade – boi, porco e ave. Já os homens pobres livres tinham dificuldades para consumir proteínas animais. Debret nota que um pequeno comerciante carioca comia apenas “um miserável pedaço de carne-seca” com farinha e feijões. Robert Walsh, viajante inglês, relata que “o alimento do pobre é o feijão-preto e a farinha de mandioca. O primeiro é sempre preparado com toucinho e a mandioca é servida também com carne-seca”. A situação dos escravos era ainda pior, tendo que lutar para conseguir comer qualquer espécie de carne. Segundo Debret, viviam “disputando aos animais domésticos os restos de comida”. Em regiões rurais, médicos encontraram escravos que não comiam alimento animal havia anos. Eram verdadeiros vegetarianos à força. Em busca de carne, alguns escravos ficavam próximos ao matadouro, aguardando o momento em que as sobras eram jogadas ao mar. Eles então mergulhavam nas águas da Baía de Guanabara e coletavam os miúdos de boi, para fazer lingüiças e comer junto com feijões. Quando os senhores concediam carne a seus escravos, esta vinha em tão pouca quantidade que muitas vezes era necessário transformá-la em sopa, para que todos pudessem comer. Os cativos também buscavam outros tipos de animais para completar sua dieta, atesta o inglês John Luccock: “tudo quanto tem vida, exceto, talvez, alguns répteis, [...] e todas as criaturas pareciam igualmente bem-vindas pelas classes baixas dos nativos e pretos”. Alguns escravos lançavam mão do roubo para conseguir pedaços de bife. Quando os quartos de bois eram transportados do matadouro para os açougues em carrinhos de mão, assaltavam o transportador para conseguir sua pequena porção diária de alimentação animal. Quem mais recorria aos assaltos eram os chamados escravos de ganho, que podiam se dedicar a diferentes ofícios urbanos por conta própria, devendo pagar boa parte de seu rendimento aos senhores. Não à toa, em 1808, D. João criou a Intendência de Polícia da Corte, que, entre outras funções, tinha que manter a “ordem” na cidade, evitando furtos e toda forma de organização e preparação de uma rebelião escrava na nova capital do Império. No livro Geografia da fome, escrito logo após a Segunda Guerra Mundial, o médico e intelectual Josué de Castro (1908-1973) afirmou que era possível dividir a humanidade entre os que não comem e os que não dormem com medo dos que não comem. Assim vivia a população do Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX: em parte faminta, em parte amedrontada. Fonte: RHBN |
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
domingo, 9 de janeiro de 2011
Acusado de torturar Dilma dá entrevista: “Era uma coisa comum”
Por Rafael Motta
Um apartamento no Bairro das Astúrias, em Guarujá, é a residência de um militar da reserva acusado pela presidente eleita da República, Dilma Rousseff, de ter presenciado sua torturada em 1970. Segundo ela, em depoimento à Justiça Militar, o oficial também chefiou dois outros militares que compareceram ao presídio Tiradentes e a ameaçaram.
Na ocasião, ela perguntou se eles estavam autorizados pelo Poder Judiciário. E recebeu a seguinte resposta: "Você vai ver o que é o juiz lá na Operação Bandeirante" (um dos centros de tortura da ditadura militar).
Não só nesse presídio, como no Dops paulistano (outro órgão dos aparelhos de segurança), Dilma Rousseff sofreu as seguintes torturas: choques elétricos, pau de arara e palmatória. Teve um dente quebrado e, devido a hemorragias graves, foi levada ao Hospital Central do Exército e ao Hospital das Clínicas.
A Tribuna localizou, no Guarujá, o então capitão e hoje tenente-coronel reformado Maurício Lopes Lima. Ele admite a repressão, mas nega ter seviciado qualquer preso, incluída a presidente eleita. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em abril do ano passado, Dilma afirmou que Lima presenciou as torturas, mas não a agrediu.
O tenente-coronel, de 75 anos, é apontado pelo Ministério Público Federal (MPF), em ação civil pública ajuizada na última quinta-feira, como um dos responsáveis por seis mortes ou desaparecimentos forçados e por tortura a outras 20 em 1969 e1970, no auge da ditadura militar brasileira (1964-1985). Segundo o MPF, o militar foi "chefe de equipe de busca e orientador de interrogatórios" da Operação Bandeirante (Oban) e do DOI/Codi - Departamentos de Operações de Informação dos Centros de Operações de Defesa Interna.
Em quase uma hora de entrevista, o ex-integrante da Oban afirmou ter exercido apenas funções investigativas: "Eu era o chefe da equipe das in vestigações. Tinha o chefe da equipe do interrogatório", cujo nome não declinou. Nesse departamento, seriam aplicados métodos de tortura para obtenção de informações. "Criminoso só fala em juízo. Mas nós tínhamos uma pressa, porque os outros continuavam. Eram verdadeiras quadrilhas de terroristas".
A Oban foi um grupo composto por militares e civis especializados na caça de organizações que se opunham à ditadura, sob a alegação de que seriam terroristas. Foram raras, contudo, ações violentas contra inocentes cometidas pela esquerda. O terrorismo de Estado e de grupos de extrema direita, este sim, era frequente.
Lima, que ocupou a função entre outubro de 1969 e o primeiro bimestre de 1971, é apontado como "partícipe direto de violências em face de" 16 das 26 vítimas apontadas no documento. Os outros citados pelo MPF são os também militares reformados Homero Cesar Machado, Innocencio Fabricio de Mattos Beltrão (ambos do Exército) e João Thomaz (capitão reformado da Polícia Militar). Se a ação for declarada procedente, os quatro serão responsabilizados por torturas e mortes, terão de indenizar as vítimas (entre elas, Dilma) e suas aposentadorias poderão ser cassadas.
A seguir, trechos da entrevista de Maurício Lopes Lima para A Tribuna.
"Todo terrorista passou a ser torturado"
A Tribuna - Como o sr. ingressou na Operação Bandeirante?
Maurício Lopes Lima - Eu fui designado. Se me recusasse, estaria numa posição muito horrível. Mas,aliás,eu fui porque concordava. Discordo totalmente da luta armada. Eu acho que a luta armada tem de ser feita por profissionais, e não por civis irresponsáveis.(...) Houve um tenente que estava no DOI-Codi e teve que se casar. Como não estava programado, então pegaram o capitão Maurício (referindo-se a si mesmo em terceira pessoa), que estava proposto para transferência para a polícia do Exército, ao lado da minha casa, lá no Ibirapuera (na Capital)... Eu escutava até a corneta de lá... "Já que você vai ser transferido, você está sendo designado pro DOI-Codi, pra Operação Bandeirante". E eu fui, e ocupei inicialmente a posição de chefe de equipe de busca. En tão, o que era o chefe de equipe de busca? Nós recebíamos pedidos de busca, vários, escolhíamos aqueles terroristas que tínhamos mais possibilidade de encontrar e encontrávamos o terrorista, ou não o encontrávamos. Como encontrava, não sei, porque às vezes levava tiro, às vezes não levava, então, foi uma coisa totalmente... Na entrada num aparelho (base operacional de supostos terroristas), nós tivemos vários feridos, vários, inclusive, mor tos, no Rio de Janeiro etc.
A Tribuna - Pessoas do Exército morreram nessas ações?
Maurício Lopes Lima - Sim. Nós vamos chegar, então, ao fim da picada, que é a dona Dilma, e é por isso que vocês estão aqui... Com a Dilma aconteceu o seguinte: eu tive três contatos com a Dilma. No primeiro contato, ela foi presa num ponto com, possivelmente, outro integrante (do grupo de guerrilha VAR-Palmares).
Maurício Lopes Lima - Sim. Nós vamos chegar, então, ao fim da picada, que é a dona Dilma, e é por isso que vocês estão aqui... Com a Dilma aconteceu o seguinte: eu tive três contatos com a Dilma. No primeiro contato, ela foi presa num ponto com, possivelmente, outro integrante (do grupo de guerrilha VAR-Palmares).
A Tribuna - Onde foi isso?
Maurício Lopes Lima - Foi em São Paulo. (...) Este foi o primeiro encontro com a Dilma, ela presa e eu, que já chefiava a parte de investigações. Me perguntaram: "Maurício, nós tamos com um problema, aí, que acho que é do comando nacional da VAR-Palmares, a Dilma. Mas nós não temos fotografia, nós não temos nada. Nem xerox consta"... Xerox, naquelas máquinas... Falei: "Eu vou pegar o dossiê e vou conversar com ela". Então, cheguei, e disse: "Dona Dilma Vana Rousseff Linhares. A senhora é membro do comando nacional da VAR-Palmares"... Aí, comecei a contar a história dela: "Nasceu em tanto, de tanto de tanto...". E disse até o nome do marido, dos amantes, de tudo. Aí, no final, eu acho que ela viu que não tinha jeito, que nós íamos identificá-la. Como ela era de Minas (Gerais), nós íamos mandar a identificação pra Minas e, no final, ela disse: "Tá bem, eu sou a Dilma, e tudo...". Eu disse: " Tá bem. Fecha a porta. Ela já reconheceu que não era o que tava na carteira de identidade, carteira falsa". Aí, o pessoal foi conversar com ela. Pronto: foi meu primeiro contato. O segundo contato foi quando ela resolveu entregar alguém. Então, ela saiu comigo e nós fomos dar um passeio. Nós fomos a um local onde funcionava uma fábrica de bombas que, um pouquinho antes, tinha explodido, levando até a mão de uma das terroristas... (...) Eu não tive mais contato com a Dilma. Fui encontrá-la na auditoria militar, em 1970, porque o processo foi julgado e ela foi condenada. Fui uma das testemunhas de acusação. E, assim, cessou meu contato com ela.
Maurício Lopes Lima - Foi em São Paulo. (...) Este foi o primeiro encontro com a Dilma, ela presa e eu, que já chefiava a parte de investigações. Me perguntaram: "Maurício, nós tamos com um problema, aí, que acho que é do comando nacional da VAR-Palmares, a Dilma. Mas nós não temos fotografia, nós não temos nada. Nem xerox consta"... Xerox, naquelas máquinas... Falei: "Eu vou pegar o dossiê e vou conversar com ela". Então, cheguei, e disse: "Dona Dilma Vana Rousseff Linhares. A senhora é membro do comando nacional da VAR-Palmares"... Aí, comecei a contar a história dela: "Nasceu em tanto, de tanto de tanto...". E disse até o nome do marido, dos amantes, de tudo. Aí, no final, eu acho que ela viu que não tinha jeito, que nós íamos identificá-la. Como ela era de Minas (Gerais), nós íamos mandar a identificação pra Minas e, no final, ela disse: "Tá bem, eu sou a Dilma, e tudo...". Eu disse: " Tá bem. Fecha a porta. Ela já reconheceu que não era o que tava na carteira de identidade, carteira falsa". Aí, o pessoal foi conversar com ela. Pronto: foi meu primeiro contato. O segundo contato foi quando ela resolveu entregar alguém. Então, ela saiu comigo e nós fomos dar um passeio. Nós fomos a um local onde funcionava uma fábrica de bombas que, um pouquinho antes, tinha explodido, levando até a mão de uma das terroristas... (...) Eu não tive mais contato com a Dilma. Fui encontrá-la na auditoria militar, em 1970, porque o processo foi julgado e ela foi condenada. Fui uma das testemunhas de acusação. E, assim, cessou meu contato com ela.
A Tribuna - O sr. deve ter lido o depoimento dela (na auditoria), em que ela não o considerava testemunha porque o sr. "foi um dos torturadores da Organização Bandeirante".
Maurício Lopes Lima - Não. Eu não sei de onde vem. Ela mesma reconhece u que eu não a torturei... (Levanta-se e traz recorte do jornal Folha de S. Paulo, onde consta que o "capitão [posto que Lima ocupava em 1970] presenciou sessões, mas não a agrediu"). Eu não presenciei. Eu nego. Eu não sei onde arranjaram.
Maurício Lopes Lima - Não. Eu não sei de onde vem. Ela mesma reconhece u que eu não a torturei... (Levanta-se e traz recorte do jornal Folha de S. Paulo, onde consta que o "capitão [posto que Lima ocupava em 1970] presenciou sessões, mas não a agrediu"). Eu não presenciei. Eu nego. Eu não sei onde arranjaram.
A Tribuna - Estou vendo, aqui, um parágrafo da entrevista que a Folha fez no ano passado: "Dilma afirmou que Lima presenciou as torturas, mas não realizou pessoalmente nenhuma agressão contra ela".
Maurício Lopes Lima - Então, já começa a haver conflito. Se, de um lado, eu sou torturador, não torturei por quê? Porque ela era bonita? Ela era horrível (ri). Hoje, a Dilma é muito mais bonita.
Maurício Lopes Lima - Então, já começa a haver conflito. Se, de um lado, eu sou torturador, não torturei por quê? Porque ela era bonita? Ela era horrível (ri). Hoje, a Dilma é muito mais bonita.
A Tribuna - O sr. disse que foi destacado...
Maurício Lopes Lima - Fui designado para a Operação Bandeirante. Foi uma coisa interna.
Maurício Lopes Lima - Fui designado para a Operação Bandeirante. Foi uma coisa interna.
A Tribuna - Não era uma função de chefia, de comando?
Maurício Lopes Lima - Não, eu substituí outro que já estava.
Maurício Lopes Lima - Não, eu substituí outro que já estava.
A Tribuna - Mas essa sua substituição, mesmo o sr. dizendo não ter agido diretamente em sessões de tortura, no caso de Dilma, não poderia torná-lo também responsável, de forma solidária, pelo fato de exercer função de comando?
Maurício Lopes Lima - É aquele negócio: nós estávamos numa guerra; eu estava de um lado. Lógico que eu sou contrário ao outro lado. Agora, é uma coisa, também, que repórter não entende: o que é segurança? Em assuntos de segurança, quanto menos você sabe, menos responsável você é. Então, nós éramos setorizados. Não é que eu não pudesse saber: eu não queria saber. Eu não vou... Quanto menos eu soubesse, menos responsável eu seria, pelo sigilo.
Maurício Lopes Lima - É aquele negócio: nós estávamos numa guerra; eu estava de um lado. Lógico que eu sou contrário ao outro lado. Agora, é uma coisa, também, que repórter não entende: o que é segurança? Em assuntos de segurança, quanto menos você sabe, menos responsável você é. Então, nós éramos setorizados. Não é que eu não pudesse saber: eu não queria saber. Eu não vou... Quanto menos eu soubesse, menos responsável eu seria, pelo sigilo.
A Tribuna - De certa forma, não sabia de tudo?
Maurício Lopes Lima - Quase não sabia. E, principalmente... Ela (Dilma) tem uma outra alegação: que foram dois elementos da minha equipe no presídio Bandeirantes (na verdade, Tiradentes) ameaçá-la. Nunca nenhum dos meus elementos da equipe cumpriu uma ordem que eu não determinasse. Eu estava à testa de tudo. E eu não determinei e eles não fizeram.
Maurício Lopes Lima - Quase não sabia. E, principalmente... Ela (Dilma) tem uma outra alegação: que foram dois elementos da minha equipe no presídio Bandeirantes (na verdade, Tiradentes) ameaçá-la. Nunca nenhum dos meus elementos da equipe cumpriu uma ordem que eu não determinasse. Eu estava à testa de tudo. E eu não determinei e eles não fizeram.
A Tribuna - Agora, quanto a interrogatórios mais duros, em sessões de tortura...
Maurício Lopes Lima - Tortura. Pode ter havido tor- tura de ambos os lados. Eu sou uma testemunha da tortura. Sim, eu sou. Eu comandei a equipe que desenterrou o capitão Mendes (Alberto Mendes Júnior, da Polícia Militar, morto em 10 de maio de 1970 em Sete Barras, no Vale do Ribeira, durante perseguição ao ex-capitão do Exército Carlos Lamarca) em Registro, e ele foi morto sob tortura. Lamarc a e mais cinco julgaram o capitão Mendes e o condenaram no justiçamento. O Brasil passou a ter pena de morte.
Maurício Lopes Lima - Tortura. Pode ter havido tor- tura de ambos os lados. Eu sou uma testemunha da tortura. Sim, eu sou. Eu comandei a equipe que desenterrou o capitão Mendes (Alberto Mendes Júnior, da Polícia Militar, morto em 10 de maio de 1970 em Sete Barras, no Vale do Ribeira, durante perseguição ao ex-capitão do Exército Carlos Lamarca) em Registro, e ele foi morto sob tortura. Lamarc a e mais cinco julgaram o capitão Mendes e o condenaram no justiçamento. O Brasil passou a ter pena de morte.
A Tribuna - Conforme convenções internacionais, o crime de tortura, independentemente do lado, é imprescritível e, mesmo havendo, como no Brasil, a Lei da Anistia, se entende que pode haver a obrigatoriedade de sanções a quem participou disso.
Maurício Lopes Lima - Não, não aceito. Não aceito porque a tortura, no Brasil, era uma coisa comum.
Maurício Lopes Lima - Não, não aceito. Não aceito porque a tortura, no Brasil, era uma coisa comum.
A Tribuna - Dos dois lados?
Maurício Lopes Lima - Não, da polícia nossa. Era uma coisa normal. Sua empregada roubou, você a levava lá à delegacia, aí o delegado já (dizia): "Pode deixar que a gente vai dar um pau nela". Dali a um pouquinho, ela voltava. Pegou um dinheiro, emprestou pra fulano de tal, tá em tal lugar... Então, é comum, em todas as delegacias do B rasil. Então, esse negócio de dizer que tortura... Todo terrorista passou a ser torturado. Todo. Não tem exceção.
Maurício Lopes Lima - Não, da polícia nossa. Era uma coisa normal. Sua empregada roubou, você a levava lá à delegacia, aí o delegado já (dizia): "Pode deixar que a gente vai dar um pau nela". Dali a um pouquinho, ela voltava. Pegou um dinheiro, emprestou pra fulano de tal, tá em tal lugar... Então, é comum, em todas as delegacias do B rasil. Então, esse negócio de dizer que tortura... Todo terrorista passou a ser torturado. Todo. Não tem exceção.
A Tribuna - O sr. nunca chegou a participar diretamente de sessões de tortura?
Maurício Lopes Lima - Não, não, não, não. Dentro do setor de investigações, são investigações. Agora, quando você fala em depoimentos, é outra coisa. Aí, eu caio fora...
Maurício Lopes Lima - Não, não, não, não. Dentro do setor de investigações, são investigações. Agora, quando você fala em depoimentos, é outra coisa. Aí, eu caio fora...
A Tribuna - O sr. votou nesta eleição (não era obrigado, por ter mais de 70 anos)?
Maurício Lopes Lima - Votei,o voto é secreto (risos). Eu poderia dizer que votei na Dilma, e aí, "ótimo, tá vendo, Dilma? O Maurício é bonzinho e votou em você, tá?". Poderia dizer que votei no (José) Serra, que é uma péssima escolha, mas eu poderia votar nele também.
Maurício Lopes Lima - Votei,o voto é secreto (risos). Eu poderia dizer que votei na Dilma, e aí, "ótimo, tá vendo, Dilma? O Maurício é bonzinho e votou em você, tá?". Poderia dizer que votei no (José) Serra, que é uma péssima escolha, mas eu poderia votar nele também.
A Tribuna - Particularmente para o sr., com o foi lidar com a família naquele período?
Maurício Lopes Lima - Lidar com a família foi um pouco difícil. Depois que houve a Anistia, a minha família foi punida.
Maurício Lopes Lima - Lidar com a família foi um pouco difícil. Depois que houve a Anistia, a minha família foi punida.
A Tribuna - De que maneira?
Maurício Lopes Lima - Funções. A minha ex-esposa (historiadora) perdeu o cargo (num programa na TV Cultura) e foi tirada de lado porque era esposa de militar. O que dizer para a minha esposa? Antes eu mandava, agora não mando mais. Então, fica difícil explicar as coisas.
Maurício Lopes Lima - Funções. A minha ex-esposa (historiadora) perdeu o cargo (num programa na TV Cultura) e foi tirada de lado porque era esposa de militar. O que dizer para a minha esposa? Antes eu mandava, agora não mando mais. Então, fica difícil explicar as coisas.
Fonte:Tribuna de Santos
sábado, 8 de janeiro de 2011
Feiura, não
| Médico dá instruções sobre embelezamento na década de 1920. Para ele, a fealdade podia ser causada até por vício |
| Por Christianne Theodoro de Jesus |
Um ser degenerado, de uma raça que precisava ser melhorada. Esta era uma ideia comum sobre o mestiço brasileiro no fim do século XIX e no início do XX. Discussões acaloradas no meio científico nacional se preocuparam com o aspecto físico desse indivíduo. O médico Renato Kehl (1889-1974), autor do livro A cura da fealdade(Editora Monteiro Lobato, 1923) – guardado na Divisão de Obras Gerais da Biblioteca Nacional – era um dos que se dedicaram a esse tema. Mas a abrangência de seus estudos é tão ampla que é difícil definir o que ele considerava feio: ia desde narizes achatados a doenças como raquitismo e sífilis. Mesmo admitindo que a feiúra podia ter diversas causas – ambientais, climáticas, hereditárias etc. – Kehl assegurava que “são elas, em grande número, devido aos próprios indivíduos, adquiridas por desleixo, ignorância ou por vício”. A crença na medicina e no poder da eugenia – teoria que propunha o melhoramento das raças – levou o médico a afirmar, num tom quase profético, que a beleza perdida podia ser recuperada por meios cirúrgicos: “o homem, capaz de talhar no mármore a Vênus de Milo, é capaz também de moldar plasticamente toda a humanidade”. Aliás, “moldar plasticamente” acabou se tornando uma profissão muito rentável. A preocupação com o casamento ocupa boa parte do capítulo “A fealdade se evita”. Uma das propostas de Kehl para a prevenção da fealdade era a criação de um “exame de sanidade pré-nupcial”, obrigatório para todos os candidatos ao matrimônio, que determinaria “a proibição formal [do enlace] àqueles que não estejam em condições de higidez [saúde]”. O médico desaconselhou enfaticamente a viagem de lua de mel “tão em voga entre as famílias abastadas, por serem perniciosas (...). A pobre esposa (...) submete-se, nessa ocasião, a um traumatismo que abalará todo o seu ser, e é este o momento que escolhe para ajuntar às excitações conjugais”. Entre os traumas estavam trepidações de trem e corridas cansativas, que poderiam causar abortos. Os procedimentos estéticos atuais deixariam Renato Kehl de cabelo em pé: acreditando que o avanço da medicina seria responsável pelo embelezamento dos indivíduos, rechaçava a maioria dos meios artificiais para aumentar a beleza da mulher. Considerava que “não consiste a terapêutica [para eliminar a feiura] em artifícios de toucador, em cremes, pomadas, tinturas”, métodos causadores de mudanças superficiais e criadores de “beldades falsas”. O projeto de Kehl incluía um amplo programa de reforma do indivíduo, baseado não só na higiene corporal, mas também na educação moral – que fornecesse às pessoas, sobretudo às crianças, noções de “deveres individuais, de família e de pátria” – e nas intervenções cirúrgicas. Para o embelezamento do conjunto “crânio-facial”, nada mais indicado que uma massagem manual para tonificar a pele e exercícios para a musculatura da face; no tratamento dos incômodos cravos, pomada composta de cânfora, ácido fênico, vaselina e mentol. O uso de chapéus apertados devia ser evitado por homens e mulheres, pois contribuía para o enfraquecimento dos cabelos. Kehl também desaprovaria as técnicas utilizadas em larga escala nos salões de cabeleireiro de hoje: não se devia, segundo ele, “mantê-los aprisionados entre grampos e cremes”, muito menos “submetê-los à ação dos frisadores, fortemente aquecidos, que têm a desvantagem de queimá-los”. Para a robustez do corpo, o médico indicava diversos exercícios físicos com gráficos mostrando a postura correta para evitar deformações na coluna. O asseio também devia ser impecável, tanto para a saúde como para evitar embaraços: quando há “falta de higiene e a troca rara de meias (…) os pés, nessas condições, exalam um cheiro forte e nauseabundo, incomodando não só o paciente como as pessoas com quem convive”. O estudo do médico se baseava no legado de Francis Galton (1822-1911), o pai da eugenia. Kehl, que criaria em 1931 o Comitê Central do Eugenismo – um dos seus objetivos seria divulgar as teorias eugênicas de regeneração moral e física dos indivíduos –, escreveu mais de 500 páginas sobre a eliminação da feiúra, expondo vários métodos para atenuar ou eliminar os traços indesejados, uma “profilaxia da fealdade”. Ele partia das seguintes premissas: “a fealdade não é atributo natural da espécie humana” e “a beleza humana depende, na maioria das vezes, dos próprios indivíduos, bem como a fealdade”. Fonte: RHBN |
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Noite feliz na terra de ninguém: Natal de 1914
No Natal de 1914, em plena Primeira Guerra Mundial, soldados ingleses e alemães deixaram as trincheiras e fizeram uma trégua. Durante seis dias, eles enterraram seus mortos, trocaram presentes e jogaram futebol
por Bruno Leuzinger
Finalmente parou de chover. A noite está clara, com céu limpo, estrelado, como os soldados não viam há muito tempo. Ao contrário da chuva, porém, o frio segue sem dar trégua. Normal nesta época do ano. O que não seria normal em outros anos é o fedor no ar. Cheiro de morte, que invade as narinas e mexe com a cabeça dos vivos – alemães e britânicos, inimigos separados por 80, 100 metros no máximo. Entre eles está a “terra de ninguém”, assim chamada porque não se sobreviveria ali muito tempo. Cadáveres de combatentes de ambos os lados compõem a paisagem com cercas de arame farpado, troncos de árvores calcinadas e crateras abertas pelas explosões de granadas. O barulho delas é ensurdecedor, mas no momento não se ouve nada. Nenhuma explosão, nenhum tiro. Nenhum recruta agonizante gritando por socorro ou chamando pela mãe. Nada.
E de repente o silêncio é quebrado. Das trincheiras alemãs, ouve-se alguém cantando. Os companheiros fazem coro e logo há dezenas, talvez centenas de vozes no escuro. Cantam “Stille Nacht, Heilige Nacht”. Atônitos, os britânicos escutam a melodia sem compreender o que diz a letra. Mas nem precisam: mesmo quem jamais a tivesse escutado descobriria que a música fala de paz. Em inglês, ela é conhecida como “Silent Night”; em português, foi batizada de “Noite Feliz”. Quando a música acaba, o silêncio retorna. Por pouco tempo.
“Good, old Fritz!”, gritam os britânicos. Os “Fritz” respondem com “Merry Christmas, Englishmen!”, seguido de palavras num inglês arrastado: “We not shoot, you not shoot!”(“Nós não atiramos, vocês também não”).
Estamos em algum lugar de Flandres, na Bélgica, em 24 de dezembro de 1914. E esta história faz parte de um dos mais surpreendentes e esquecidos capítulos da Primeira Guerra Mundial: as confraternizações entre soldados inimigos no Natal daquele ano. Ao longo de toda a frente ocidental – que se estendia do mar do Norte aos Alpes suíços, cruzando a França –, soldados cessaram fogo e deixaram por alguns dias as diferenças para trás. A paz não havia sido acertada nos gabinetes dos generais; ela surgiu ali mesmo nas trincheiras, de forma espontânea. Jamais acontecera algo igual antes. É o que diz o jornalista alemão Michael Jürgs em seu livro Der Kleine Frieden im Grossen Krieg – Westfront 1914: Als Deutsche, Franzosen und Briten Gemeinsam Weihnachten Feierten (“A Pequena Paz na Grande Guerra – Frente Ocidental 1914: Quando Alemães, Franceses e Britânicos Celebraram Juntos o Natal”, inédito no Brasil).
Conhecido então como Grande Guerra (pouca gente imaginava que uma segunda como aquela seria possível), o conflito estourou após a morte do arquiduque Francisco Ferdinando. Herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, ele e sua esposa Sofia foram assassinados em Sarajevo, na Sérvia, no dia 28 de junho. O atentado, cometido por um estudante, fora tramado por um membro do governo sérvio. Um mês mais tarde, em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia. As nações européias se dividiram. Grã-Bretanha, França e Rússia se aliaram aos sérvios; a Alemanha, aos austro-húngaros. Nas semanas seguintes, os alemães invadiram a Bélgica, que até então se mantivera neutra, e, ainda em agosto, atravessaram a fronteira com a França. Chegaram perto de tomar Paris, mas os franceses os detiveram, em setembro.
Nos primeiros meses, a propaganda militar conseguiu inflar o orgulho dos soldados – de lado a lado. O fervor patriótico crescia paralelamente ao ódio pelos inimigos. Entretanto, em dezembro o moral das tropas já despencara. A guerra se arrastava havia quase um semestre. Os britânicos haviam perdido 160 mil homens até então; Alemanha e França, 300 mil cada. Para piorar, as condições nas trincheiras eram péssimas. O odor beirava o insuportável, devido às latrinas descobertas e aos corpos em decomposição. Estirados pela terra de ninguém, cadáveres atraíam ratazanas aos milhares. Era um verdadeiro banquete. Com tanta carne, elas engordavam tanto que algumas eram confundidas com gatos. Pior que as ratazanas, só os piolhos. Milhões deles, nos cabelos, barbas, uniformes. Em toda parte.
Quando chovia forte, a água batia na altura dos joelhos. Dormia-se em buracos escavados na parede e era comum acordar assustado no meio da noite, por causa das explosões ou de uma ratazana mordiscando seu rosto. Durante o dia, quem levantasse a cabeça sobre o parapeito era um homem morto. Os franco-atiradores estavam sempre à espreita (no final da tarde, praticavam tiro ao alvo no inimigo e, quando acertavam, diziam que era um “beijo de boa-noite”). O soldado entrincheirado passava longos períodos sem ter o que fazer. Horas e horas de tédio sentado no inferno. Só restava esperar e olhar para céu – onde não havia ratazanas nem cadáveres.
O cotidiano de horrores foi minando a vontade de lutar. Uma semana antes do Natal já havia sinais disso. Foi assim em Armentières, na França, perto da fronteira com a Bélgica. Soldados alemães arremessaram um pacote para a trincheira britânica. Cuidadosamente embalado, trazia um bolo de chocolate e dentro, escondido, um bilhete. Os alemães pediam um cessar-fogo naquela noite, entre 19h30 e 20h30. Era aniversário do capitão deles e queriam surpreendê-lo com uma serenata. O bolo era uma demonstração de boa vontade. Os britânicos concordaram e, na hora da festa inimiga, sentaram no parapeito para apreciar a música. Aplaudidos pelos rivais, os alemães anunciaram o encerramento da serenata – e da trégua – com tiros para cima. Em meio à barbárie, esses pequenos gestos de cordialidade significavam muito.
Ainda assim, era difícil imaginar o que estava por vir. Na noite do dia 24, em Fleurbaix, na França, uma visão deixou os britânicos intrigados: iluminadas por velas, pequenas árvores de Natal enfeitavam as trincheiras inimigas. A surpresa aumentou quando um tenente alemão gritou em inglês perfeito: “Senhores, minha vida está em suas mãos. Estou caminhando na direção de vocês. Algum oficial poderia me encontrar no meio do caminho?” Silêncio. Seria uma armadilha? Ele prosseguiu: “Estou sozinho e desarmado. Trinta de seus homens estão mortos perto das nossas trincheiras. Gostaria de providenciar o enterro”. Dezenas de armas estavam apontadas para ele. Mas, antes que disparassem, um sargento inglês, contrariando ordens, foi ao seu encontro. Após minutos de conversa, combinaram de se reunir no dia seguinte, às 9 horas da manhã.
No dia seguinte, 25 de dezembro, ao longo de toda a frente ocidental, soldados armados apenas com pás escalaram suas trincheiras e encontraram os inimigos no meio da terra de ninguém. Era hora de enterrar os companheiros, mostrar respeito por eles – ainda que a morte ali fosse um acontecimento banal. O capelão escocês J. Esslemont Adams organizou um funeral coletivo para mais de 100 vítimas. Os corpos foram divididos por nacionalidade, mas a separação acabou aí: na hora de cavar, todos se ajudaram. O capelão abriu a cerimônia recitando o salmo 23. “O senhor é meu pastor, nada me faltará”, disse. Depois, um soldado alemão, ex-seminarista, repetiu tudo em seu idioma. No fim, acompanhado pelos soldados dos dois países, Adams rezou o pai-nosso. Outros enterros semelhantes foram realizados naquele dia, mas o de Fleurbaix foi o maior de todos.
Aquela situação por si só já era inusitada: alemães e britânicos cavando e rezando juntos. Mas o que se viu depois foi um desfile de cenas surreais. Em Wez Macquart, França, um britânico cortava os cabelos de qualquer um – aliado ou inimigo – em troca de alguns cigarros. Em Neuve Chapelle, também na França, os soldados indicavam discretamente para seus novos amigos a localização das minas subterrâneas. Em Pervize, na Bélgica, homens que na véspera tentavam se matar agora trocavam presentes: tabaco, vinho, carne enlatada, sabonete. Uns disputavam corridas de bicicleta, outros caçavam coelhos. Uma luta de boxe entre um escocês e um alemão foi interrompida antes que os dois se matassem. Alguém sugeriu um duelo de pistolas entre um alemão e um inglês, mas a idéia foi rechaçada – afinal, aquilo era um cessar-fogo.
Porém, o melhor estava por vir. Nos dias 25 e 26, foram organizadas animadas partidas de futebol. Centenas jogaram bola nos campos de batalha. “Bola” em muitos casos era força de expressão; podia ser apenas um monte de palha amarrado com arame, ou uma lata de conserva vazia. E, no lugar de traves, capacetes, tocos de madeira ou o que estivesse à mão. Foi assim em Wulvergem, na Bélgica, onde o jogo foi só pelo prazer da brincadeira, ninguém prestou atenção no resultado. Mas houve também partidas “sérias”, com direito a juiz e a troca de campo depois do intervalo. Numa delas, que se tornou lendária, os alemães derrotaram os britânicos por 3 a 2. A vitória suada foi cercada de polêmica: o terceiro gol alemão teria sido marcado em posição irregular (o atacante estava impedido) e a partida, encerrada depois que a bola – esta de verdade, feita de couro – furou ao cair no arame farpado.
A maioria das confraternizações se deu nos 50 quilômetros entre Diksmuide (Bélgica) e Neuve Chapelle. Os soldados britânicos e alemães descobriam ter mais em comum entre si que com seus superiores – instalados confortavelmente bem longe da frente de batalha. O medo da morte e a saudade de casa eram compartilhados por todos. Já franceses e belgas eram menos afeitos a tomar parte no clima festivo. Seus países haviam sido invadidos (no caso da Bélgica, 90 por cento de seu território estava ocupado), para eles era mais difícil apertar a mão do inimigo. Em Wijtschate, na Bélgica, uma pessoa em particular também ficou muito irritada com a situação. Lutando ao lado dos alemães, o jovem cabo austríaco Adolf Hitler queixava-se do fato de seus companheiros cantarem com os britânicos, em vez de atirarem neles.
Naquele tempo, Hitler ainda não apitava nada. Entretanto, os homens que davam as cartas também não estavam nem um pouco felizes. Dos quartéis-generais, os senhores da Guerra mandaram ordens contra qualquer tipo de confraternização. Quem desrespeitasse se arriscava a ir à corte marcial. A ameaça fez os soldados voltarem para as trincheiras. Durante os dias seguintes, muitos ainda se recusavam a matar os adversários. Para manter as aparências, continuavam atirando, mas sempre longe do alvo. Na noite do dia 31, em La Boutillerie, na França, o fuzileiro britânico W.A. Quinton e mais dois homens transportavam sua metralhadora para um novo local, quando de repente ouviram disparos da trincheira alemã. Os três se jogaram no chão, até perceberem que os tiros eram para o alto: os alemães comemoravam a virada do ano.
A trégua velada resistiu ainda por um tempo. Até março de 1915, alemães e britânicos entrincheirados em Festubert, na França, faziam de conta que a guerra não existia – ficava cada um na sua. Mas a lembrança das confraternizações foi aos poucos cedendo espaço para o ódio. A carnificina recrudesceu, prosseguindo até a rendição da Alemanha, em novembro de 1918, arrasando a Europa e deixando cerca de 10 milhões de mortos. Talvez a matança até valesse a pena, se a profecia do escritor de ficção científica H.G. Wells tivesse dado certo. O autor de A Máquina do Tempo escrevera em um ensaio que aquela seria “a guerra que acabaria com todas as guerras”. Wells, é claro, estava enganado. Os momentos de paz, como os do Natal de 1914, seriam escassos também ao longo de todo o século 20. A Grande Guerra tinha sido só o começo.
Fonte: Aventuras na História
sábado, 27 de novembro de 2010
Brasil pré-histórico teve troca de povos
| Ossadas encontradas no Piauí indicam que populações negroides e mongoloides conviveram na região entre 5 e 8 mil anos atrás 24 de novembro de 2010 | ||||||
| por Heloísa Broggiato | ||||||
No entanto, prospecções feitas nos últimos anos pela Fundação Museu do Homem Americano (Fundham) no Piauí encontraram esqueletos de adultos e fragmentos de ossos humanos queimados revelando que uma população com características mongoloides habitava a região entre 5 e 8 mil anos atrás. Teria ocorrido, portanto, uma troca de populações. A arqueóloga Gisele Daltrini Felice, uma das responsáveis pelas descobertas no sudoeste do Piauí, ressalta que serão realizados estudos específicos de antropologia física em todos os esqueletos humanos encontrados. Ela explica que a importância dessas descobertas é a possibilidade de se verificar o tipo físico e conseguir dados sobre ritos funerários para identificar como se comportavam os diferentes grupos que ocuparam a região. O local dos achados não poderia ter nome mais adequado: Serra das Confusões. | ||||||
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Paleontologia - Noticias da "Pré-História"
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Exposição em Berlim documenta trabalhos forçados durante o nazismo
Museu Judaico de Berlim explicita, em mostra itinerante, a dimensão do horror do trabalho forçado durante o período nazista na Alemanha.
Fonte:Dw-World
"Coluna Grünspan, aprendam a trabalhar!" são os dizeres estampados em um cartaz levantado por dois homens, atrás dos quais estão aproximadamente 12 outros em fila. Com pose militar, eles carregam pás e picaretas como se estivessem segurando armas.
Os judeus, tanto na Alemanha quanto nos territórios ocupados, foram as primeiras vítimas do sistema de trabalhos forçados implementado pelo regime nazista. Acusados de "se esquivarem do trabalho", eles eram humilhados e tinham suas imagens publicamente denegridas. O cinismo do regime chegava ao ápice nas inscrições lidas nos portões de entrada dos campos de concentração: "O trabalho liberta" (Arbeit macht frei).
Milhões de vítimas
Mais de 20 milhões de homens, mulheres e crianças, oriundos de toda a Europa, foram levados à força para a Alemanha ou confinados nos campos de trabalho forçado dos territórios ocupados. Volkhard Knigge, coordenador da exposição no Museu Judaico de Berlim e diretor do Memorial Buchenwald, localizado no ex-campo de concentração de mesmo nome, fala de um "crime público". No mais tardar a partir de 1941, milhões de pessoas foram submetidas ao trabalho forçado como auxiliares domésticos, na agricultura, em diversos setores da indústria e até mesmo nas igrejas.
Knigge afirma que houve uma "penetração profunda do nazismo na sociedade alemã", o que faz com que o título da atual exposição no Museu Judaico seja tão adequado e pertinente: Trabalho forçado. Os alemães, os trabalhadores forçados e a guerra.
A mostra foi financiada com quatro milhões de euros, disponibilizados pela Fundação "Memória, Responsabilidade, Futuro" – também conhecida como Fundação dos Trabalhadores Forçados – sediada em Berlim desde 2000, o ano de sua criação, e responsável pelo pagamento de cinco bilhões de euros de indenizações às vítimas do trabalho forçado, espalhadas por todo o mundo. Metade dos recursos angariados para esses pagamentos veio dos contribuintes e das empresas alemãs que, durante o período nazista, se aproveitaram da mão-de-obra barata e gratuita.
Frio gélido nas barracas
A exposição em Berlim, com aproximadamente mil fotos, cartas, além de áudios e imagens, deixa claro como o sistema de trabalho forçado funcionava perfeitamente. Denúncias em relação a judeus ou a ciganos das etnias sinti e rom, bem como comentários depreciativos sobre os chamados "trabalhadores estrangeiros", oriundos dos países ocupados pela Wehrmacht, eram corriqueiros. Os alemães teriam que ter tomado a decisão a respeito de como se defrontariam com essas pessoas, "se com um resto de humanidade ou com os critérios misantropos da ideologia racista", acentua o historiador Knigge.
Em estações espalhadas pela exposição, o visitante pode ouvir áudios gravados a partir de lembranças deixadas por escrito pelas vítimas, como por exemplo pelo francês Jaques Leperc, forçado a trabalhar, sob terríveis condições de higiene, na montadora BMW aos 20 anos de idade: "Na barraca onde fui instalado, fazia um frio horrível. Comecei a trabalhar: 12 horas por dia numa semana, e, na outra, turnos noturnos de 12 horas, que eram interrompidos por diversos ataques aéreos", lembra Leperc.
Apesar de extremamente debilitado, ele sobreviveu à exploração, aos maus-tratos e à falta de tratamento médico. De acordo com Knigge, a mostra pretende também prestar uma homenagem a esses trabalhadores forçados ainda vivos.
Elogio de um sobrevivente de Auschwitz
Pela primeira vez, é possível mostrar aspectos dos destinos dessas pessoas, inclusive no pós-guerra. Para isso, os historiadores responsáveis pelo projeto pesquisaram em diversos arquivos, privados e públicos, no mundo inteiro, mas especialmente na Europa, nos EUA e em Israel, tendo se surpreendido sobretudo com o amplo material fotográfico encontrado. Essas fotos, expostas como em um filme, possibilitam uma visão profunda da vida e do sofrimento dos trabalhadores forçados, o que fica claro nos vários exemplos individuais.
O historiador polonês Marian Turski, sobrevivente do Gueto de Varsóvia, bem como dos campos de concentração de Auschwitz e Buchenwald, ficou impressionado com os resultados da longa pesquisa. "Essa é uma exposição muito séria, inteligente e cuidadosamente preparada", diz ele, satisfeito com o fato de que a mostra deverá chegar também à Polônia. De Berlim, a exposição itinerante segue para Varsóvia, onde será inaugurada em 2011. Segundo o curador Knigge, há negociações em relação a outros países.
Esperanças de interesse por parte do Leste Europeu
Acima de tudo, os historiadores envolvidos esperam que a mostra desperte o interesse de países da antiga União Soviética, onde muitos desses trabalhadores forçados ainda foram estigmatizados como traidores da pátria ao regressarem a seus países. A equipe de organização da mostra já está, de qualquer forma, bem preparada caso a exposição desperte o interesse de outros países. O conceito da mostra foi desenvolvido em inglês, francês, polonês e russo.
Os visitantes da exposição deverão apreender também algumas informações acerca do pós-guerra, especialmente a respeito da repressão do tema "trabalho forçado". Isso ao ponto de, no ano de 1951, em Landsberg, milhares de pessoas terem ido às ruas protestar contra a execução de criminosos de guerra nazistas, que haviam sido condenados. O inacreditável lema dos protestos na época era: "Manifestação contra a desumanidade".
Indenizações são "justiça restrita"
Transcorreu mais de meio século até que o Estado alemão e as empresas do país – maiores beneficiadas com o trabalho forçado – indenizariam as vítimas, o que só ocorreu devido à grande pressão internacional.
O historiador Jens-Christian Wagner, também membro da equipe responsável pela exposição em Berlim, define as indenizações tardias como "justiça restrita". A ajuda humanitária aos sobreviventes do trabalho forçado só aconteceu quando 80% deles já haviam morrido, ressalta o historiador.
"E é preciso dizer com clareza que grupos grandes de trabalhadores forçados, como os prisioneiros de guerra soviéticos ou os italianos em internamento militar, nunca foram indenizados", lamenta Wagner. Ou seja, a história do trabalho forçado não chegou ao fim e nos arquivos ainda há muito material a ser descoberto e avaliado, completa o historiador.
Na fila com Imre Kertész
O polonês Marian Turski, que construiu estradas no campo de concentração de Auschwitz e trabalhou ao lado do escritor húngaro Imre Kertész, Nobel de Literatura, em Buchenwald, lamenta que apenas poucos dos sobreviventes em seu país possam ver a exposição.
"Os sobreviventes já estão, em sua maioria, idosos demais. E grande parte deles vive no interior do país. Para eles vai ser provavelmente difícil ir até Varsóvia para ver a mostra", completa Turski.
Depois de alguns segundos de hesitação, ele acrescenta como é realmente importante, contudo, que as próximas gerações, através desta exposição, aprendam mais sobre os crimes do regime nazista, acerca dos quais tantos silenciaram por tanto tempo.
Autor: Marcel Fürstenau (sv)
Revisão: Roselaine Wandscheer
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Era Napoleônica: tecnologia militar
por Natalia Yudenitsch
A era napoleônica foi rica em invenções. As reformas educacionais, somadas à filosofia iluminista do século 18, que celebrava a ciência e a razão, levaram a um desenvolvimento do saber em todas as áreas do conhecimento. As constantes guerras que marcaram o período foram também as responsáveis por um sem-número de descobertas e aperfeiçoamentos no campo militar, como o pára-quedas. Apesar de já existir desde o século 12 na China e ter sido esquematizado por Leonardo da Vinci em 1485, ele foi reinventado na França em 1783 por Sébastien Lenormand e, dois anos depois, usado por Jean-Pierre Blanchard para demonstrar um salto de seu balão. Veja a seguir os inventos que entraram para a história das guerras.
Telégrafo óptico
A palavra telégrafo vem dos gregos tele (longe) e grapho (escrevo) - "escrever a distância". Quem colocou o conceito no mapa das guerras foi o francês Claude Chappe. Em 1792, ele instalou um sistema de telégrafo óptico entre as cidades de Paris e Lille. A linha de semáforos tinha duas réguas articuladas de madeira e uma terceira conectando as duas instaladas no topo de torres. A possibilidade das posições das réguas, que tinham entre 1 e 9 m, chegava a 196 combinações, que repassavam frases por símbolos codificados. O sistema era simples e eficiente, e transmitia um símbolo por todas as 15 torres através de cerca de 190 km, em menos de dez minutos. Uma mensagem típica tinha cerca de 36 símbolos. O sucesso desse primeiro sistema levou à construção de outras linhas, usadas por Napoleão para coordenar seus exércitos por toda a Europa.
Nautilus
Em 1800, o inventor americano Robert Fulton adicionou uma nova palavra ao dicionário naval: torpedo. Sua criação, o submarino Nautilus, foi o primeiro a oferecer a possibilidade de afundar navios inimigos através do disparo de bólidos explosivos recheados de pólvora. Com 6,50 m de comprimento, estrutura de ferro coberta de placas de cobre e lemes para o controle vertical, ele permitia que quatro passageiros ficassem submersos por até seis horas. Apresentava ainda uma torre de observação e propulsores operados manualmente. Financiado por Napoleão, o invento, contudo, não agradou. Mesmo depois de afundar uma escuna de quatro mastros, os franceses cortaram seu patrocínio em 1804. No ano seguinte, Fulton tentou vender o Nautilus aos britânicos, ao afundar um veleiro de 3 toneladas. Os ingleses também não se impressionaram. O motivo das recusas era a incapacidade de o submarino acompanhar a velocidade das esquadras navais, perdendo seu diferencial estratégico.
Comida enlatada
Manter as rações diárias do exército durante a marcha pela conquista do continente. Esse era o objetivo de Napoleão quando, em 1800, mandou anunciar uma recompensa de 12 mil francos para quem inventasse uma forma barata e eficiente de armazenar grandes quantidades de comida por longos períodos de tempo. A tarefa foi levada a sério pelo confeiteiro francês Nicolas François Appert. Após anos de testes, em 1809 ele faturou o grande prêmio ao apresentar sua criação: a comida enlatada. O método consistia em selar a vácuo vidros cheios de alimentos. Devido à fragilidade do material, contudo, os potes logo foram substituídos por recipientes de aço ou latão. Detalhe: o abridor de latas só foi inventado 30 anos depois. Na prática, porém, o invento teve um início de vida difícil. A dificuldade de enlatar a comida em massa, somada ao lento esquema de carregar e transportar as latas, atrasou tanto o processo que o aperfeiçoamento só aconteceu depois da guerra. Para azar do inventor francês, sua fábrica de enlatados, construída com o dinheiro do prêmio, foi queimada em 1814 durante a invasão da França pelas tropas aliadas. Com o fim das Guerras Napoleônicas e o gradual crescimento da população urbana, os enlatados se popularizaram por toda a Europa e os Estados Unidos.
O explosivo Shrapnel Shell
O exército britânico foi o primeiro a usar as munições explosivas mais conhecidas como shrapnel shell, em homenagem a seu inventor, o então tenente da Artilharia Real Britânica Henry Shrapnel. Em 1784, bancando o desenvolvimento do invento de seu próprio bolso, Shrapnel mostrou a seus colegas uma bala de canhão oca recheada de projéteis de chumbo, que explodiam no ar após o disparo. Os oficiais se interessaram, mas não o suficiente. Em 1787, o tenente aperfeiçoou ainda mais a munição, demonstrando o estrago feito por um projétil de morteiro com cerca de 200 balas de mosquete misturadas com pólvora. Apesar da aprovação dos generais, nada foi feito, até que, em 1792, Shrapnel conseguisse convencer um comitê do alto comando inglês a examinar a proposta de adicionar as balas explosivas ao arsenal do exército. A apresentação se deu em 3 de junho de 1803. Foi então montada uma linha de produção para a manufatura. No ano seguinte, depois que sua criação foi usada com sucesso em batalha, Shrapnel foi promovido a tenente-coronel.
Pólvora sem fumaça
Durante as Guerras Napoleônicas, uma das principais reclamações dos oficiais era a dificuldade em coordenar seus exércitos em campos de batalha quase invisíveis por causa da fumaça deixada pelas armas utilizadas. A solução só veio em 1886, quando o químico francês Paul Marie Eugène Vieille inventou a primeira pólvora sem fumaça, batizada de Poudre B (do francês poudre blanche, ou pó branco). À base de nitrocelulose misturada a álcool e éter, ela revolucionou o uso das armas de fogo nos combates. Comparada à pólvora negra, a pólvora química, como também é conhecida, permite mais mira e pressão com menor quantidade, produz menos fumaça e resíduos e ainda mantém o poder de explosão mesmo quando úmida. A Poudre B foi para combate no fim do mesmo ano nos rifles Rebel 1886, usados pela infantaria francesa.
Fonte: Revista Aventuras na História
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