quinta-feira, 21 de abril de 2011

             HIGIENIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO NO RECIFE DO SÉCULO XIX
            Recife: uma cidade em processo de urbanização

              por Samuel Lima

O processo de expansão e urbanização do Recife, inicia-se a partir da década de 20 do século XIX, onde certos locais da cidade recebe um bom número de obras estruturais ou reformas em setores urbanos já em estado de obsolência. As primeiras obras do Recife neste século, foram aplicadas em setores de iluminação, ordenamento das casas e ruas, expansão em forma de aterro da Boa Vista, calçamentos, abastecimento através de encanação e saneamento básico.
O Recife décadas antes deste processo reestruturador, era uma cidade que padecia de problemas de abastecimento, iluminação pública de qualidade e outros fatores estruturais que uma cidade em pleno XIX precisava para melhora de vida de sua população.
Para tomarmos como ponto de partida desta analise, nos entrojetaremos em suas condições físicas e estrutrais para compreendermos melhor tal situação. As ruas do Recife - grande parte delas - inexistiam calçamentos em seu “leitos” ao ponto que, no periodo de chuvas ( de junho a agosto), ficavam alagadas prejudicando o transporte público e de mercadorias em suas ramificações. As casas eram catalógadas vulgarmente, as ruas recebiam nomes variaveis ditados pelo gosto popular, existia muitos becos e vielas que dificultavam o tráfego de transuentes e meios de transportes. A ilumminação pública baseava-se em luminarias, candeeiros e lamparinas abastecidos a vela, só pontos isolados da cidade recebiam iluminação pública, mesmo assim também abastecidas a luz de velas, as demais partes ficavam a cargo dos moradores de iluminarem a localidade. 
O abastecimento de água era feito por intermédio de canoas transportadas por escravos, as fontes de água que abasteciam a cidade, localizavam-se no Varadouro(Olinda), nas cacimbas de Ambrósio Machado (próximo ao forte das Cinco Pontas) e Lagoa do Prata  ( Dois Irmãos). A diculdade de abastecimentos na cidade nunca foi um fato novo, este problema durou por muitos séculos até a segunda metade do XIX, quando cria-se a Companhia de Abastecimento de Beberibe, tanto é que o preço do balde d’água sofria aumento de preço quase que sempre. 
O Saneamento básico era inexistente, os dejetos humanos eram jogados nos rio Capibaribe, nas ruas e nos becos. Quase que não existia latrinas. O trabalho de transporte dos dejetos era feito como sempre, por escravos, sendo estes chamados por alcunha de “tigres”. O transporte humano era feito através de “liteiras” ou de carroças, isto é, nas estações secas. Carecia a cidade de alguns prédios públicos para as funções administrativas, não existiam centros ou escolas de formação de educadores e nem centros de propagação das artes.
Porem, a partir da década de XX do século XIX- principalmente quando Recife recebe o título de cidade em 1823 -, passa a mesma, a receber um significativo impulso urbanizante. Neste primeiro tempo, a cidade recebe uma documentação régia para que suas ruas sejam iluminadas através de lamparinas e postes abastecidos á oléo de peixe ou de carrapateira, as primeiros locais iluminadas foram: a Rua Nova, o cais do Porto e depois certas partes do bairro de Santo Antônio. Antes desta data, só eram iluminadas certas áreas da Vila em ocasiões de festividades, geralmente acessas por três dias, pois a vila pagava imposto imperial a Capital do Império, então a cidade do Rio de Janeiro. Um ano antes de tal feito, a Vila inaugurava o Farol do Picão, erguido em 1822 ao dia um de janeiro.
Nas vésperas do natal do 1823, o governo da província de Pernambuco delega aos Engenheiros Jacob Niemeyer e Herculano de Moraes a missão de elaboração de um projeto para captação de água encanada para o Recife. Projeto entregue no dia 13 de janeiro de 1824 alegando que a tal empreitada deveria ser aplicada na captação das águas do Beberibe, Lagoa do Prata e Camaragibe, nascia já daí o futuro projeto de água encanada do Recife. Entretanto, a então recente cidade que acabara de tornar-se capital da província, ainda padecia agonizantemente de seus antigos problemas estruturais até finais da década de 30 (século XIX).
O maior impulso modernizador e urbanista que a então recente capital da província recebe, acontece no governo de Francisco do Rego Barros – 1838 a 1841, de 1841 a 1844. Em suas duas gestões o “Chico Macho” (como era popualrmente apelidado), empreendeu uma série de obras reestruturadoras e urbanizadoras na província de Pernambuco, principalmente na capital. Como forma de melhorar o sistema de abastecimento de água, coloca em prática o então projeto de funcionamento da Companhia de Beberibe, esta, entra erm funcionamento na década de quarenta. As fontes de abasteciemento localizavam-se na Lagoa do Prata, atual bairro de Dois Irmãos, a captação era feita por meio de bombeamento, e sua distribição era praticada por canos de cobre e de ferro, a água encanada em canos de ferro servia para o abastecimento de prédios públicos e residências, já o abastecimento através dos canos de cobre, era destinado aos chafarizes públicos, sendo estes localizados em pontos estratégicos da urbe recifense e de bairros adjacentes. O valor do balde d’água quase que manteve-se o mesmo que à décadas atrás. O transporte dos baldes de água era tarefa dos escravos domésticos e de negros de ganho, havia muitas reclamações dos senhores de posses do Recife sobre a demora, conversa e libertinagem dos negros nas filas para enchemento dos baldes de água nos chafarizes. Porem, mesmo com a Companhia de Beberibe abastecendo a região, os metros cúbicos por dias despejados no Recife eram insuficientes para o abastecimento da população.
No quesito iluminação pública, o Recife passou a obter um melhor sistema com a substituição dos postes abastecidos por óleo de peixe e de carrapateira pelo gás hidrogênio, algumas localidades dos bairros do centro e pontos estratégicos de importância econômica e social.
Em relação a normatização de ruas e casas, O “Chico Macho” manda aplicar números nas casas, batiza as ruas e calça algumas, e dá uma melhor forma de localização ao então bairro central, aterra partes no bairro da Boa Vista com vias de fato ao aumento de sua área territorial.
O primeiro centro de formação de educadores é criado em seu governo, esta medida visava capacitar educadores para a formação primaria na província, esta escola, em seu principio era ferqüentada somente por homens.
A educação superior chega à província na década de 20 com a criação da Faculdade de Direito do Recife, porém, a faculdade passa a ter prédio próprio na década de 70 do XIX.
Em 1840, inicia-se no Recife o projeto de construção de passeios públicos para a população que tanto reclamava, com a construção de praças arborizadas, jardins e parques. Projeta-se também a construção de um cemitério público para descentralizar a responsabilidade com os mortos, que era da Igreja Católica, sendo este construido no logradouro de Santo Amaro das Salinas, em um terreno parte doado por particular, e outra comprada pela provincia, apesar de iniciada sua construção em meados da década de quarenta do XIX, só é terminado em finais da década de 1850.
Em realação as artes, o Recife só contava com um teatro de expressão na primeira metade do XIX, e este era o teatro Apolo, construido em 1825 através do incentivo de um “comunidade” teatral existente neste período. No governo de Francisco do Rego do Barros, o mesmo, contrata por meio do erário público engenheiros e arquitetos franceses para algumas obras estruturais, uma dessas obras planejadas e a do Teatro Santa Isabel, e da Sede do Governo da Provincia. O Teatro ficou a cargo do Engenheiro Louis Vaultier, que projeteou sua planta em estilo Neoclássico. Porém, o teatro só ficou terminado no final da década de 1850, já com outro engenheiro assumindo a obra, o “secretário de obras públicas” José Mamede Ferreira, sendo este o finalizador do projeto do teatro. Entre as obras de Mamade Ferreira podemos destacar a construção de uma ponte pencil na Caxangá, o Hospital Pedro II, o Predio do Atual Ginásio Pernambucano, o melhoramento e construção do prédio da Alfandega e outras obras de infra-estrutura que agraciaram a cidade em sua gestão.
Como já fora dito a pouco, o transporte na cidade do Recife era praticado por meio de carroças e Liteiras. Só ocorre mudança neste modelo a partir da década de 1860, com a introdução de um transporte ferroviário ligando o centro da cidade as demais localidades adjcentes, era este o chamado Macha Bomba. Um classico exemplo deste modelo podemos observar  hoje em dia na Estação Ponte D’ Uchoa, no Bairro das Graças. Esta etação é o que sobrou das estações de transporte público que ligava os bairros do centro aos bairros periféricos, a Companhia responsável pelo transporte ferroviário era uma empresa estrangeira estabelecida na província. Os Machas Bombas só serão substituídos pelo bondinho puxado a burros da empresa Ferro Carril em meados dos anos 1870.
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Referências Bibliográficas
CARVALHO, Marcos de. Rotinas e rupturas do escravismo. Recife: 1822 a 1850.  
COSTA, Cleonir Xavier de Albuquerque & Aciolli Vera Lúcia Costa. José Mamede Alves Ferreira: sua vida e sua obra: 1820-1850.
REZENDE, Antônio Paulo. O Recife: História de uma cidade.  



O quebra-cabeça da escravidão

No Brasil da miscigenação racial, as relações entre os senhores e seus escravos eram muito mais dinâmicas do que se imagina

por Laurentino Gomes
No cemitério da Santa Casa de Porto Alegre, uma tumba do fim do século 19 oferece um desafio para os estudiosos da escravidão no Brasil. Ali estão depositados os ossos do barão de Nonoai, sua mulher e um casal de escravos. Na lápide de granito recém-colocada pela família durante a reforma do túmulo, os nomes dos escravos foram omitidos, mas seus restos mortais permanecem lá, anônimos, como um testemunho silencioso da peculiar relação que se estabeleceu entre senhores e cativos durante os quase quatro séculos de escravidão. Eles são a prova de que no Brasil da miscigenação racial portuguesa as relações entre opressores e oprimidos, apesar de muitas vezes cruéis, eram mais fluidas do que indica o senso comum. O desembarque, a compra e a venda de escravos fizeram parte da rotina brasileira entre os séculos 16 e 19. Nesse período, cerca de 10 milhões de cativos africanos foram transportados para as Américas. O Brasil, maior importador do continente, recebeu quase 40% desse total, algo entre 3,6 milhões e 4 milhões de escravos.
Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil, em 1808, navios negreiros vindos da costa da África despejavam no Mercado do Valongo, no Rio de Janeiro, entre 18 mil e 22 mil homens, mulheres e crianças por ano. Ali permaneciam em quarentena, para serem engordados e tratados das doenças. Quando adquiriam aparência mais saudável, eram comercializados da mesma maneira como hoje pecuaristas negociam animais de corte no interior do Brasil. O tráfico de africanos era um negócio gigantesco. Incluía agentes na costa da África, exportadores, armadores, transportadores, seguradores, importadores, atacadistas que no Brasil repassavam “a mercadoria” para traficantes regionais. Os lucros eram astronômicos. Em 1812, metade dos 30 maiores comerciantes do Rio de Janeiro se constituía de traficantes. Um negro comprado em Angola, por 70mil-réis, era revendido em Minas Gerais por até 240 mil-réis. Os museus coloniais estão repletos de instrumentos pavorosos de suplício dos escravos. A punição mais comum era o açoite, nas costas ou nas nádegas. Há relatos de castigos com 200, 300 ou até 600 golpes de açoite. Para evitar infecções nas feridas, banhava-se o cativo com uma mistura de sal, vinagre ou pimenta malagueta.
Muito antes da abolição, já havia no Brasil um grande número de escravos libertos, chamados de "negros forros”. Alguns acumulavam dinheiro vendendo serviços nas cidades e assim conseguiam comprar a liberdade. Outros ganhavam a alforria por iniciativa de seus proprietários. A liberdade 
não significava melhoria de vida. No cativeiro, a manutenção dos escravos era regulada por lei. Seus  donos tinham a obrigação de alimentá-los e dar-lhes moradia e assistência mínima. A lei previa que, em caso de maus-tratos comprovados, o senhor poderia perder sua propriedade. Livres, no entanto, os negros ficavam entregues à própria sorte. Curiosamente, muitos alforriados chegavam a enriquecer e se tornavam proprietários de escravos e terras. Eram casos relativamente raros, mas a simples existência deles torna o mundo da escravidão no Brasil ainda mais surpreendente. O mais famoso é o da mulata Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva do distrito diamantino de Tejuco, em Minas Gerais. Chica nasceu escrava, mas conquistou sua liberdade em dezembro de 1753, concedida pelo 
contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Embora nunca tenham se casado oficialmente, ela e João Fernandes mantiveram um relacionamento estável de 17 anos, período em que tiveram 13 filhos. Entre os bens de Chica havia um “significativo plantel de escravos”, segundo o historiador Ronaldo Vainfas. A miscigenação racial, uma das características mais notáveis da colonização portuguesa, fez com que os contatos entre opressores e oprimidos fossem freqüentemente permeados por relações familiares e afetivas.

Ao lado das chibatadas que vergastavam de forma cruel as costas dos cativos, havia também relações fraternas que se perpetuavam por toda a vida, ou mesmo além dela, em tumbas compartilhadas ou sobrenomes e descendências que se entrelaçaram ao longo de muitas gerações. Um caso exemplar é do estancieiro gaúcho João Pereira de Almeida. Ele era senhor de um grande plantel de escravos, mas costumava tratar seus cativos de forma branda. Na segunda metade do século 19, sensibilizado pela onda abolicionista, tomou a iniciativa de conceder a liberdade a todos eles. A atitude impressionou o imperador Pedro II, que o agraciou com o título de barão de Nonohay – grafia que, 
posteriormente, foi modificada para Nonoai, hoje nome de um município na região da antiga propriedade do fazendeiro. Dois desses escravos recusaram a condição de libertos. É esse o casal que hoje divide a tumba do barão na capital gaúcha. Depositados lado a lado, os ossos dessas pessoas são também um advertência silenciosa de que, ao estudar História, é preciso fugir à tentação do maniqueísmo, que classifica seus personagens entre vilões e mocinhos, sem levar em conta as peculiaridades de cada época.

SAIBA MAIS
LIVROS 
O Feitor Ausente: Estudos Sobre a Escravidão Urbana no Rio de Janeiro – 1808-1822, Leila Mezan Algranti, Vozes, 1988 Tese sobre a escravatura no século 19.
Em Costas Negras: Uma História do Tráfico Atlântico Entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX), Manolo Garcia Florentino, Arquivo Nacional, 1995 Apresenta o tráfico do ponto de vista dos africanos.
Homens de Grossa Aventura: Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830), João Luís Ribeiro Fragoso, Arquivo Nacional, 1992. Estudo das relações econômicas do Rio de Janeiro colonial.
A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro: 1808-1850, Mary Karash, Companhia das Letras, 2000. Ampla investigação da vida dos cativos na capital do país.
Campos da Violência: Escarvos e Senhores na Capital do Rio de Janeiro 1750-1808, Silvia Hunold Lara, Paz e Terra, 1988. Analisa o relacionamento entre proprietários e escravos.
Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), Ronaldo Vainfas (org.), Objetiva, 2001. Descreve os hábitos públicos e privados do Brasil Colônia.
Fonte:Aventuras na História

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Cientistas acham ossos de possível homem pré-histórico homossexual
Esqueleto masculino encontrado na República Tcheca foi enterrado segundo ritual destinado às mulheres.


Da BBC 


Cientistas tchecos escavaram o que acreditam ser o esqueleto de um homem pré-histórico homossexual ou transexual que viveu entre 4.500 e 5.000 anos atrás.
A equipe de pesquisadores da Sociedade Arqueológica Tcheca constatou que os restos - retirados de um sítio arqueológico neolítico em Praga - indicam que o indivíduo, de sexo masculino, foi enterrado segundo ritos normalmente destinados às mulheres.
Homem homossexual pré-histórico 1 (Foto: Sociedade Arqueológica Tcheca / via BBC)
Local onde o esqueleto do homem pré-histórico supostamente homossexual, revelado pela arqueóloga Katerina Semradova. (Foto: Sociedade Arqueológica Tcheca / via BBC)

A arqueóloga Katerina Semradova disse à BBC Brasil que o enterro "atípico" indica que o indivíduo encontrado fazia parte do "terceiro sexo", provavelmente homossexual ou transexual.
"Trabalhamos com duas hipóteses: a de que o indivíduo poderia ter sido um xamã ou alguém do terceiro 'terceiro sexo'. Como o conjunto de objetos encontrados enterrados ao redor do esqueleto não corroboravam a hipótese de que fosse um xamã, é mais provável que a segunda explicação seja a correta", disse Semradova.
As escavações foram abertas ao público nesta quinta-feira e a visitação tem sido intensa.
Os restos são de um membro da cultura da cerâmica cordada, que viveu no norte da Europa na Idade da Pedra, entre 2.900 a.C e 2.500 a.C.
Homem homossexual pré-histórico 2 (Foto: Sociedade Arqueológica Tcheca / via BBC)
Utensílio doméstico encontrado junto à ossada em Praga. (Foto: Sociedade Arqueológica Tcheca / via BBC
 Neste tipo de cultura, os homens normalmente são enterrados sobre o seu lado direito, com a cabeça virada para o oeste, juntamente com ferramentas, armas, comida e bebidas.
As mulheres, normalmente sobre o seu lado esquerdo, viradas para o leste e rodeada de jóias e objetos de uso doméstico.
O esqueleto foi enterrado sobre o seu lado esquerdo, com a cabeça apontando para o oeste e cercado de objetos de uso doméstico, como vasos.
"A partir de conhecimentos históricos e etnológicos, sabemos que os povos neste período levavam muito a sério os rituais funerários, portanto é improvável que esta posição fosse um erro", disse a coordenadora da pesquisa, Kamila Remisova Vesinova. "É mais provável que ele tenha tido uma orientação sexual diferente, provavelmente homossexual ou transexual."
Homem homossexual pré-histórico 2 (Foto: Sociedade Arqueológica Tcheca / via BBC)
Utensílio doméstico encontrado junto à ossada em Praga. (Foto: Sociedade Arqueológica Tcheca / via BBC)Fonte: G1





Esqueletos de manicômio do século 16 são descobertos em Londres

Antigo hospital psiquiátrico existia no atual centro financeiro da cidade

Da BBC

Arqueólogos descobriram no centro de Londres esqueletos de vários pacientes do século 16 de um antigo hospital para doentes mentais. A descoberta ocorreu na Liverpool Street, centro financeiro da cidade, onde ficava o antigo hospital de Bethlehem, conhecido no passado como Bedlam.
Considerada a mais antiga instituição psiquiátrica do mundo, o hospital foi fundado em 1247. A instituição mudou-se da Liverpool Street séculos atrás, e hoje está na região de Bromley, próxima de Londres.
A descoberta dos esqueletos ocorreu quando arqueólogos examinavam o terreno antes de dar início a escavações do metrô. "Sabemos por meio de pesquisa que este é o cemitério do St. Bethlehem da época pós medieval", disse Jay Carver, um dos arqueólogos.
Temos três escavações ocorrendo lá atualmente para estabelecer quem está enterrado, e que providencias devem ser tomadas para garantir que os restos humanos sejam recuperados da maneira correta, estudados e enterrados novamente", disse ele.
"Esperamos que a análise dos esqueletos nos diga algo interessante sobre as pessoas enterradas aqui, como por exemplo, quais as causas de suas mortes", completou.
Calcula-se que ossos de milhares de pessoas possam estar enterrados no local.
Fonte: G1

quinta-feira, 31 de março de 2011

Você pensa que lagosta é peixe?
Exploração do crustáceo no Nordeste gerou crise diplomática entre Brasil e França e quase vira conflito militar.
Cláudio da Costa Braga

Um inocente crustáceo foi a causa de uma das maiores crises diplomáticas da história entre Brasil e França, que quase chegou às vias militares mas também teve contornos cômicos. 

O imbróglio, que ficou conhecido como Guerra da Lagosta, teve início no começo da década de 1960, quando barcos franceses passaram a pescar no litoral de Pernambuco. Depois de esgotar a captura da lagosta em seu próprio litoral e nos países da costa ocidental africana, a França se interessou pelo Nordeste brasileiro, onde a produção crescia a olhos vistos. A exportação anual de lagosta pulou de 40 toneladas, em 1955, para 1.741 toneladas em 1961. O Brasil lucrava quase 3 milhões de dólares por ano com esse comércio, que se concentrava nos portos de Fortaleza e Recife.

Os primeiros barcos franceses chegaram em março de 1961, depois de obterem autorização para realizar “pesquisas” em nosso litoral. Ao constatar que as embarcações estavam pescando lagostas em grande escala, a Marinha cancelou a licença. Em novembro a França voltou à carga, desta vez pedindo para atuar fora das águas territoriais brasileiras, na região da plataforma continental – faixa submersa até 200 metros de profundidade que pertence ao país, mas cujas águas são livres para exploração internacional. Autorização concedida, começaram os problemas.

Em janeiro de 1962, um pesqueiro francês chamado Cassiopée foi flagrado capturando lagostas e apresado pela corveta brasileira Ipiranga. O incidente abriu uma curiosa discussão diplomática a respeito da natureza do animal em questão. A Convenção de Genebra, assinada em 1958, assegurava que os recursos minerais, biológicos, animais ou vegetais da plataforma continental pertencem ao país costeiro. Com base nesse tratado, o Brasil alegava que a lagosta era um recurso pertencente à plataforma, devido à sua natureza sedentária: para se deslocar caminhava, ou no máximo executava saltos. Em resumo, não nadava.


Em resposta, o governo francês saiu-se com o argumento oposto: a lagosta pode ser considerada um peixe. Ao se mover pelas águas de um lado para o outro, ela certamente não estava andando, e portanto não era um recurso da plataforma. O objetivo era deslocar o assunto para o campo da pesca em alto-mar, permitida pela Convenção. 

Para derrubar a lógica francesa, o comandante Paulo de Castro Moreira da Silva (1919-1983), renomado oceanógrafo, defendeu o Brasil com uma pérola de ironia: “Ora, estamos diante de uma argumentação interessante: por analogia, se a lagosta é um peixe porque se desloca dando saltos, então o canguru é uma ave”.


Um prato cheio para a pilhéria, a Guerra da Lagosta virou até marchinha de Carnaval. Os versos consagrados de “Você pensa que cachaça é água?”, sucesso em 1953, foram adaptados nos salões para “Você pensa que lagosta é peixe?”. Mas a repercussão do caso era levada a sério pelos jornais. Afinal, nenhum dos países dava o braço a torcer: os franceses continuavam pescando lagostas, e a Marinha brasileira apresava os barcos que conseguia pegar em flagrante. A carga era apreendida e os capitães tinham que assinar um termo se comprometendo a não mais voltar à costa brasileira. Mas muitos voltavam.

Os pescadores nordestinos iniciaram protestos gerando forte pressão sobre o governo. Ameaçavam agir diretamente contra os pesqueiros franceses e seus representantes em terra para a defesa de seus interesses. Queixavam-se de concorrência desleal: além de maiores e mais bem equipadas do que as nossas, as embarcações francesas eram acusadas de praticar a pesca de arrasto, modalidade proibida no Brasil por seu caráter predatório – uma rede pesada é lançada ao fundo e recolhe tudo o que encontra pela frente. Os brasileiros capturavam lagostas com o tradicional covo, uma espécie de armadilha em que o animal entra e fica preso.

A situação ficou ainda mais tensa no início de 1963. No dia 30 de janeiro, um navio de patrulha detectou a presença de pesqueiros franceses na região, e como estes ignoraram a ordem para se retirar, recebeu ordens da Marinha para “usar a força na medida do necessário”. Diante da ameaça de um ataque, os franceses mudaram de idéia. O problema é que, dias depois, os barcos e suas cargas não apenas foram liberados como o presidente João Goulart, quebrando o protocolo das negociações, concedeu pessoalmente ao embaixador da França no Brasil, Jacques Baeyens, autorização para que seis pesqueiros voltassem a capturar lagostas na região. 

O clamor público foi tamanho que a autorização foi suspensa. Era a vez dos franceses protestarem. O chanceler francês afirmou não aceitar a decisão brasileira. A ira se alastrou pelo governo da França, o que resultou na popularização da frase “O Brasil não é um país sério”, erroneamente atribuída ao presidente Charles De Gaulle. Mas ele se envolveu diretamente na crise: por ordem sua, a França enviou um navio de guerra para a região com a tarefa de proteger os pesqueiros franceses. João Goulart imediatamente determinou uma resposta militar. O Conselho de Segurança Nacional foi convocado para discutir sobre a salvaguarda de nossa soberania sob ameaça militar estrangeira. 

Diversos navios foram enviados para o litoral de Pernambuco, enquanto os de Salvador entraram em prontidão rigorosa. Esquadrões de aeronaves foram deslocados para Natal e Recife. A mobilização foi rápida mas intempestiva, revelando as grandes restrições materiais dos nossos navios, principalmente no aspecto logístico, na manutenção precária e na necessidade de muitos reparos. As restrições de munição e torpedos eram tão críticas que não permitiam aos navios manter um engajamento por mais de trinta minutos.

Na opinião pública, a guerra estava declarada. “Navios franceses atacam no Nordeste jangadeiros que pescam lagosta”, estampou o Correio da Manhã. “Frota naval da França ronda costa do Brasil”, anunciou o Última Hora. Enquanto isso, nos jornais franceses, por mais de uma vez as autoridades vieram a público lembrar que seu país detinha tecnologia nuclear, ao contrário do Brasil. 

Nos bastidores diplomáticos, havia outras questões em jogo. A França imaginava que a postura firme do governo brasileiro estaria sendo respaldada pelos Estados Unidos, num apoio não declarado. Era uma suposição equivocada. Na época, o Departamento de Estado americano enviou mensagem ao Brasil lembrando que nossos navios de guerra – na época arrendados aos Estados Unidos – por contrato não poderiam se envolver em conflito com países amigos dos norte-americanos. Ordenava por isso que eles voltassem imediatamente às suas bases. O Brasil recusou-se a atender ao pedido americano, mencionando o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) e usando um argumento caro aos brios militares daquele país: por ocasião do ataque à base de Pearl Harbor, em 1941, o Brasil declarara guerra ao Japão, em solidariedade aos Estados Unidos.

Por sorte, a Guerra da Lagosta não passou de uma indigesta hostilidade entre as nações. Em 10 de março de 1963, a França retirou seu navio de guerra e os pesqueiros por ele protegidos. O Brasil conseguia, assim, impedir a captura de lagostas em sua plataforma continental, apesar da intimidação militar de um país com poderio bélico muito maior. 

A crise foi uma demonstração de que, mesmo entre países tradicionalmente amigos, os Estados não estão isentos de serem ameaçados, até pelo uso da força, quando estão em jogo interesses econômicos.

Cláudio da Costa Braga é oficial da Marinha do Brasil e autor de A Guerra da Lagosta (Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 2004). 

Fonte: RHBN

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Recife Endêmico
Agraciado por suas pessímas condições de estrutura urbana, o Recife de meados do século XIX, é gracejado por moléstias variadas
por Samuel Lima 
No século XIX, a cidade do Recife sofreu com um bom número de casos de endemias e epidemias na área de saúde pública. O fator preponderante para tal afirmativa, se baseava nas condições sanitaristas e estruturais que gosava a cidade em pleno decurso da primeira metade do século XIX.
Por ser um cidade fincada em áreas alagadas e no delta do Capibaribe-Beberibe, despossuída de um projeto urbano e de péssimas condições de abastecimento e esgotamento domiciliar, vira bate e mexe, o recife padecia de um surto endêmico que provocava, quase que sempre, um número elevado de mortandade da sua população urbana. Quando não era estes fatores os provocadores de moléstias, era o contato com viajantes e marinheiros infectados de outras regiões que aportavam aqui. Entre as principais moléstias que gracejaram a cidade causando um grande número de mortes, podemos destacar: a Cólera, a Febre Amarela, a Tuberculose e a Variola. Também ocorriam casos de surtos de diarréias que assolavam a população. A explicação dada pelo conselho médico no período, acusava o sistema de abastecimento público e seus maus cuidados com a captação e distribuição de água para a população, um destes médicos, Saturnino de Brito, alegava que essas diarrérias e dores abdominais eram causadas pelo chumbo que revestiam os canos de cobres que abasteciam os chafarizes da Companhia Beberibe.
A preocupação com a saúde pública, só começa a tomar maior impulso técnico a partir de 1840 quando é criado o Conselho Médico de Pernambuco, que possuía como visão, o tratamento de casos de doenças, a fiscalização e a aplicação de métodos para barrar tais problemas socias.
A situação de "penumbra" em que se encontrava o Recife de meados do XIX, só possui uma verdadeira intervenção para sua melhora a partir do impulso modernizante adotado pelo governo de Francisco do Rego Barros, empreendedor nato e de ótimo tino, amplia os horizontes sociais com um número de obras públicas, econômicas e sanitaristas como a criação da Companhia de abastecimento Beberibe, sistema de iluminação pública por meio da substituição da iluminação a óleos para iluminação a gás. Criação de um centro de formação de professores para o ensino primário, ordenamento e normatização de ruas e casa, tanto como calçamentos de ruas e aterros de áreas alagadas para o crescimento da urbs. Essas e outras foram as obras modernizantes adotadas pelo "Chico Macho", apelido dado pela população ao governante empreendedor.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A comunidade do arrecife
Após serem expulsos do Recife, vinte e três judeus criaram uma comunidade na cidade que mais tarde receberia o nome de Nova York
Leonardo Dantas Silva

Em 5 de fevereiro de 1638,  Manuel Mendes de Castro, cristão-novo natural de Portugal, também chamado de Manuel Nehemias, chega ao Recife desejando criar uma colônia agrícola com 200 judeus, “entre ricos e pobres”, no Nordeste do Brasil. Seus planos não deram certo, conforme cartas do conde João Maurício de Nassau ao Alto Conselho, datadas de 19 de março e 23 de maio do mesmo ano, nas quais observa que “em vez de se encaminharem para o seu destino, aqui se dispersaram e cada um tomou o seu caminho tendo falecido o chefe”. 

Em 1635, com o domínio holandês consolidado na região, muitos judeus atravessaram o Atlântico para viver em Pernambuco, onde a comunidade do Recife mantinha a primeira sinagoga das Américas e era reconhecida em diversos lugares do mundo. 

Antes disso, alguns cristãos-novos [judeus obrigados a se converter ao catolicismo a partir de 1497] já haviam se instalado na região. Em 1542, Diogo Fernandes e Pedro Álvares Madeira receberam terras nos arredores do Recife e logo montaram o Engenho Camaragibe. Em pouco tempo, outros cristãos-novos também se tornaram donos de propriedades açucareiras, mercadores e até mesmo rendeiros na cobrança dos dízimos ou responsáveis por empréstimos. Entre esses pioneiros destacava-se o português James Lopes da Costa, que virou proprietário do Engenho da Várzea em 1591. De volta à Europa sete anos depois, ele se fixou em Amsterdã, “a Jerusalém do Ocidente”, onde fundou a primeira sinagoga daquela cidade, a Bet Yahacob (Casa de Jacob). 

Em terras nordestinas, uma colônia judaica começou a se formar com a chegada dos holandeses. Com suas atenções voltadas para a América portuguesa, as Províncias Unidas dos Países Baixos, lideradas pela Holanda, criaram a Companhia das Índias Ocidentais (1621), empresa formada pela fusão de pequenas associações capitalistas. Já em 1624 invadiram a capital da Bahia de Todos os Santos, mas foram expulsos pelos luso-brasileiros com o auxílio da esquadra do rei da Espanha. Seis anos mais tarde, atraídos pela próspera produção dos engenhos de açúcar da região pernambucana, aportaram nas costas da capitania com 65 embarcações e 7.280 homens. Desse período até 1654, a área que hoje fica entre a foz do Rio São Francisco e o Maranhão era conhecida como Brasil Holandês.

Como a tolerância religiosa estava garantida nesses novos domínios, espanhóis e portugueses, católicos ou judeus, não eram “molestados ou sujeitos a indagações em suas consciências ou em suas casas particulares”, conforme prescrevia o Regimento do governo das praças conquistadas ou que foram conquistadas concedido pelos Estados à Companhia das Índias Ocidentais, datado de Haia, 13 de outubro de 1629. Por isso, Pernambuco acabou se tornando uma terra prometida para a população judaica originária de Portugal (os sefarditas) e de alguns poucos migrados da Polônia e da Alemanha (askenazins). No Recife, o grupo aumentava a cada dia, e a cidade já não tinha espaço para acomodar tantos negociantes. A solução veio com a compra de um terreno pelo judeu português Duarte Saraiva, mais conhecido como David Senior Coronel. A área ficava junto à Porta de Terra, no caminho de Olinda, e media oitenta pés de comprimento e sessenta de largura (24,34 m x 18,30 m). Rapidamente, outros lotes nas imediações também foram arrematados por ricos negociantes da comunidade. 

Nesse pedaço da cidade, chamado de Rua dos Judeus (Jodenstraat), funcionou a primeira sinagoga das Américas. A Kahal Kadosh Zur Israel, ou Santa Comunidade o Rochedo de Israel, fora criada por iniciativa de David Senior Coronel antes de 1636. Seu nome talvez fosse uma referência à topografia local. Na mesma época, o reverendo calvinista Joannes Baers (1580-1653) dizia que “o Recife é um arrecife”. No templo judaico, o célebre português Isaac Aboab da Fonseca (c.1605-1693) exerceu seu rabinato. Bisneto do último Gaon de Castilha (autoridade máxima no ensino e na interpretação da Lei), ele saíra de sua terra natal – o distrito de Viseu, na Beira Alta – ainda criança, passando por França, Holanda e Brasil, retornando em seguida a Amsterdã, onde foi responsável pela construção da Grande Sinagoga Portuguesa, inaugurada em 1675. 

Até 1644, o rabino Aboab da Fonseca e os judeus da colônia desfrutaram de grande tolerância e prosperidade. Porém, com o retorno do conde João Maurício de Nassau aos Países Baixos, em maio daquele ano, as coisas começaram a mudar. Em 13 de junho do ano seguinte, os representantes dos proprietários de terra luso-brasileiros iniciaram um movimento para expulsar os exércitos da Companhia das Índias Ocidentais. A reação ficou conhecida como Insurreição Pernambucana. Dois meses após a deflagração dos conflitos, eles já haviam conquistado vitórias no Monte das Tabocas, na Casa Forte e no Cabo de Santo Agostinho. Com a cidade do Recife isolada, cerca de oito mil pessoas ficaram sem qualquer acesso aos alimentos produzidos na zona rural. A fome era tal que até ratos foram consumidos pela população. 

A ajuda da Holanda demorou a chegar. Somente em 22 de junho de 1646 os barcos Gulden Valk e Elizabeth aportaram em Pernambuco, trazendo soldados e comida. Com a derrota nas batalhas dos Montes Guararapes (1648 e 1649), os holandeses tiveram que depor as armas em 26 de janeiro de 1654. Cerca de 400 judeus moradores do Recife e de Maurícia (a ilha de Antonio Vaz) voltaram para os Países Baixos. Outros permaneceram pelas Américas, fundando novas colônias em ilhas do Caribe e na América do Norte. Um desses grupos saiu no navio Valk e fez uma primeira escala na Jamaica, onde acabou prisioneiro dos espanhóis. Depois de conseguir escapar com o apoio dos franceses, rumou para Nova Amsterdã a bordo do barco Sainte Catherine. Na nova terra, vinte e três adultos e crianças criaram a primeira comunidade de judeus da cidade que mais tarde ganharia o nome de Nova York.

Na capital de Pernambuco, a velha Rua dos Judeus, agora Rua do Bom Jesus, continuou guardando as memórias daqueles pioneiros. Desde 4 de setembro de 1998, os prédios de número 197 e 203 foram transformados, por um decreto do prefeito Roberto Magalhães Melo, em imóveis de utilidade pública. E voltaram a abrigar o Arquivo Judaico e a antiga sinagoga Zur Israel. 

Fonte: RHBN