terça-feira, 24 de maio de 2011

Sangue no mato

Em violentas batalhas, índios e escravos da floresta resistiram às investidas do governo sobre suas terras. A Cabanada queria a volta de D. Pedro I

Marcus J. M. de Carvalho



Uma guerra pode ter várias motivações. Enquanto alguns lutam por causas coletivas, como a independência política, outros se entregam a necessidades muito mais básicas e imediatas. Como terra, comida e o direito de viver “no mato”.

No turbulento período regencial – entre a abdicação de D. Pedro I (1831) e a maioridade de D. Pedro II (1840) –, vários conflitos sangrentos sacudiram o país. Boa parte consagrada nos livros didáticos: Balaiada, Sabinada, Guerra dos Farrapos. Mas um deles, ao contrário, permanece quase esquecido e provoca confusão por uma semelhança de nomes: a Cabanada aconteceu entre Pernambuco e Alagoas – e batizou a cabanagem, ocorrida no Pará anos depois.

Diferente de todas as outras, a Cabanada não foi uma contestação ao regime imperial autoritário, nem ambicionava a independência regional. Foi uma guerra das “gentes do mato” – índios, escravos, posseiros – em defesa de sua porção de terra.  

Tudo começou bem longe dali, na cidade, e com motivação política. Em abril de 1832, no Recife, houve um levante de militares de alta patente e proprietários rurais. Eles estavam insatisfeitos com a reviravolta ocorrida desde a abdicação de D. Pedro I. A volta do imperador para Portugal provocara a anistia dos remanescentes da Confederação do Equador, que lutara pela independência da região em 1824. Agora, aqueles que haviam combatido a revolução e garantido a manutenção do regime perdiam o poder na província para seus adversários. Parte da elite local amotinou-se contra o novo governo provincial, mas foi facilmente derrotada. 

O problema é que os proprietários rurais também haviam distribuído armas para escravos e índios no interior, pensando em tê-los como fiéis vassalos na batalha. Por isso, o governo decidiu mandar um exército com mais de mil homens em direção à divisa com Alagoas, para enquadrar a chamada “gente das matas”, os habitantes das florestas, que viviam à margem da economia local, baseada na cana-de-açúcar e no plantio de algodão. Sua resistência à investida foi imediata e brutal. 

As autoridades militares começaram a chamar os rebeldes de “cabanos”, uma referência às cabanas em que viviam. Quando começaram a levar vantagem contra as tropas oficiais, no final de 1832, tornou-se pública a figura de seu principal líder: Vicente de Paula. É desses personagens que deixam um rastro de mistério sobre sua vida pessoal. Do pouco que se sabe de suas origens, ele próprio afirmou certa vez que era filho de um padre de Goiana, importante vila perto da divisa com a Paraíba. As autoridades o acusavam de ser um “ladrão de escravos”. Mas se tivesse vendido alguns dos inúmeros escravos que diziam ter “roubado”, ou mesmo os colocado para trabalhar em seu proveito, teria se tornado um homem rico. A acusação era, na verdade, um eufemismo para encobrir a escolha feita espontaneamente pelos cativos, que optavam por deixar os engenhos e eram assimilados pelos cabanos. Ainda que obrigados a obedecer à hierarquia do grupo, sua situação passava a ser muito diferente da escravidão. Era, isto sim, o começo da liberdade. 

Em seus manifestos, os cabanos eram claros. Lutavam pela volta de Pedro I, pela Igreja e contra os “jacubinos” [sic], que, segundo diziam, haviam se apropriado do governo após derrubarem o legítimo imperador. O que eles buscavam era manter suas terras contra os proprietários rurais que passaram a invadir as florestas, cuja madeira era antes reservada à Marinha Imperial. Muitos habitantes das matas haviam sido recompensados por sua participação na repressão às revoltas contra o imperador, e agora temiam represálias. Era o caso dos índios de Jacuípe. Os escravos envolvidos, por sua vez, tinham outra demanda específica: lutavam pela nova condição adquirida após serem “roubados” por Vicente de Paula. 

Em fevereiro de 1833, o comandante das Armas de Pernambuco, José Joaquim da Silva Santiago, pensava em simplesmente exterminar os revoltosos, caso não se rendessem. Foi com esse objetivo que mandou afixar nas árvores uma proclamação endereçada aos cabanos, na qual eram tratados, logo no preâmbulo, por “brasileiros degenerados”. Mas a “gente das matas” não se deixou intimidar. Foram capazes de retomar a povoação de Jacuípe, onde antes viviam os índios e que se tornou o quartel-general das tropas do governo. Também lutaram para conquistar o porto natural de Barra Grande, à espera de uma esquadra que, acreditavam, traria de volta Pedro I. Naquele mesmo ponto havia aportado a esquadra imperial para reprimir a Insurreição Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador em 1824. Por isso ele era considerado estratégico pelos cabanos, que dali desferiram vários ataques. Tanto Barra Grande como Porto Calvo, centro das operações contra o Quilombo de Palmares, destruído em 1695, foram tomados e perdidos pelos cabanos em sucessivos combates.

Vicente de Paula costumava assinar “General” ou “Comandante de Todas as Matas”. Às vezes, com mais pompa ainda, proclamava-se “Comandante Geral do Imperial Exército de Sua Majestade Imperial Dom Pedro I”. Em 1833, afirmou que comandava um exército de 3.550 homens. Um exagero, segundo os adversários, que estimavam que o batalhão sob seu comando direto tinha cerca de 600 homens, embora reconhecessem que estes estavam bem armados e eram treinados na arte da guerra. Vicente de Paula tinha outro trunfo: navegava, soberbo, pelos labirintos das matas. Suas tropas surgiam de onde eram menos esperadas, tomando posições importantes, espalhando o terror e matando inúmeros guardas nacionais e soldados de primeira linha. O batalhão mais temido era o dos “papa-méis”, totalmente formado por escravos “roubados” por ele. 

Sempre que podiam, os cabanos levavam consigo seus mortos, tal como antes faziam os povos nativos em luta contra os conquistadores do Brasil. Muitos usavam camisas “tintas”, ou seja, da cor de vinho tinto, como uma espécie de farda. Era imensa sua ousadia. Certa vez, um cabano foi capturado. Estava “amarelo” e famélico. Depois de alimentado, diante da promessa de anistia, pediu para ir buscar a família, que deixara escondida em uma caverna. Mas qual não foi a surpresa do comandante geral das tropas do governo quando, ao se distanciar do acampamento militar, o homem subiu em um outeiro e disparou os mais terríveis impropérios contra o oficial, desaparecendo depois na floresta.

A morte de Pedro I, em 1834, pôs fim à Cabanada. Mas não sem luta. Naquele ano, os presidentes de Pernambuco e de Alagoas, Manoel de Carvalho Paes de Andrade e Antonio Pinto Chichorro da Gama, reuniram-se para traçar uma estratégia conjunta. Contavam com mais de quatro mil homens. Decidiram cercar o perímetro das matas, espalhar proclamações e prometer anistia aos que se rendessem. Os que não aceitassem a oferta seriam mortos. Segundo o comandante geral das operações, coronel Joaquim José Luís de Souza, o único jeito de pegar os cabanos era na tocaia, como se fazia com veados do mato.

A nova estratégia deu certo. Todas as cabanas, lavouras e animais encontrados foram destruídos pelas tropas do governo. Em certo local, encontraram um galo cuja boca havia sido fechada com arame para que não revelasse, com o canto, onde estavam seus donos. O bispo de Pernambuco colaborou com a repressão, mobilizando um pequeno exército de padres para pregar na área do conflito, asseverando que Pedro I estava morto e que a Regência não era contra o cristianismo. Pouco a pouco, os cabanos foram se rendendo, inclusive os índios de Jacuípe, considerados os rebeldes mais “ferozes”. 

Todos foram anistiados, menos Vicente de Paula. As autoridades queriam-no morto ou preso. Mas não conseguiram capturá-lo. Na última vez em que foi visto, submergia na escuridão das matas acompanhado por seus leais “papa-méis”, reduzidos a menos de 100 homens. 

Anos depois do fim da Cabanada, em 1842, frei José Plácido de Messina andou dias na mata fechada, em busca da povoação fundada por Vicente de Paula com os remanescentes dos cabanos, chamada Riachão do Mato. Ficou surpreso com a quantidade de gente que encontrou. Frei Messina batizou e casou centenas de pessoas que “viviam em pecado”, pois praticavam com freqüência o “despique”, nome que davam à troca de parceiros. À frente da comunidade, Vicente de Paula foi descrito pelo frei como um “semi-branco” paupérrimo, apesar da imensa deferência que todos lhe devotavam.

Mas o líder cabano não desapareceu da vida pública. Na década de 1840, voltou a se envolver na política de Pernambuco e de Alagoas. Não era incomum ser chamado de “caudilho” pelas autoridades provinciais. Principalmente depois de 1844, quando invadiu a capital de Alagoas com uma tropa de cavaleiros, em favor de um dos partidos em contenda. Depois se retirava para o interior, voltando a “roubar” escravos. Chegou a flertar com a legalidade, como quando escreveu às autoridades de Pernambuco tentando obter uma patente na Guarda Nacional. Demonstrava assim que aceitava ser assimilado à ordem, desde que com um status condizente com seu imenso poder pessoal. 

Durante a Insurreição Praieira, em 1848, tanto os líderes do Partido Liberal quanto os do Partido Conservador tentaram obter sua adesão, escrevendo-lhe cartas em tom respeitoso. Ambas as facções entendiam a influência que ele tinha sobre a “gente das matas”. Vicente de Paula aproveitou o momento para sair novamente das matas e... “roubar” mais escravos. Nomeado presidente de Pernambuco logo após aquela revolta, o marquês do Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão, resolveu prendê-lo a qualquer custo. Atraído para uma reunião, provavelmente com a promessa de que seria anistiado, Vicente de Paula finalmente acabou preso, ficando em Fernando de Noronha. Ali, ainda liderou uma rebelião em 1853. Ao ser solto em 1861, tinha 70 anos de idade.

Vicente de Paula. Vicente Ferreira de Paula. Vicente Tavares da Silva Coutinho. Seu verdadeiro nome era incerto. Mas não importa. Entre 1832 e 1835, ele foi exatamente o que pensava ser: o General de Todas as Matas. 

Fonte: RHBN

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